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O ANEL E O PADRE

Não acredito que se possa falar sobre fake news sem ler Antônio Vieira. Se eu fosse a soberana absoluta no reino das avaliações escolares, o Sermão da Sexagésima seria o ponto de partida para discorrer sobre o assunto. O que Antônio Vieira nos diz de tão interessante para valer um salto no passado, a fim de compreender o futuro que nos espera? Vieira nos dá uma lição sobre todos os aspectos fundamentais para a conversão. Explica e explicita esses aspectos por meio de uma estrutura lógica impecável. Guia o leitor na compreensão do que afirma, utilizando os próprios aspectos que apresenta. Vieira nos ensina que palavras não são o bastante. “Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras”, afirma. Muita gente, inclusive quem já possui diploma, anda precisando reler o Padre Vieira, penso comigo. Reler para se defender, reler para compreender, reler para reconhecer onde há somente palavras e onde ficaram as obras, reler para separar o que tem fu...

AULA DE PORTUGUÊS

Este é um artigo sobre a língua portuguesa. Não. É um artigo sobre a história. Não. É um artigo sobre a psicologia. Não. É um artigo sobre a política. Não. Este é um artigo sobre ser humano. Manchete: “Homem é morto com doze facadas”. Não, não era um homem, era Moa do Katendê, mestre de capoeira, referência cultural para artistas do nível de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Este artigo é sobre a língua portuguesa: eu sempre explico aos meus alunos a função das palavras indefinidas. Elas servem para ocultar e retirar responsabilidades. Se eu digo: “todos devem avaliar com cuidado esse crime abominável”, ninguém vai assumir a responsabilidade de fazer isso. Para usar uma palavra indefinida mais comprometedora, devo dizer, no mínimo: “cada leitor deve avaliar com cuidado esse crime abominável”. Cada leitor, ou seja, você, leitor, que ainda não abandonou este artigo. Mas espere: este não é um artigo sobre a língua portuguesa. É um artigo sobre a história. Em 1942, uma empresa na Alem...

DOIS VEADOS

Esta semana causou polêmica a afirmação feita por um candidato à presidência de que um certo livro que aborda a sexualidade na infância estava sendo distribuído nas escolas. Houve chuva de desmentidos: um deputado desmentiu, a editora desmentiu, os jornais falaram da mentira. Se tivesse falado de um livro importante, difícil, daqueles que quase ninguém lê, poderia ter passado por beletrista, pedante, retórico, mas não teria causado a avalanche de comentários que provocou. Teria chamado a atenção daquela minoria de leitores atentos, que não é a maioria dos seus eleitores. Com a mentira, mais que deslavada, atraiu a atenção de todos. É uma estratégia eficaz para ser lembrado, embora seja um mal-caratismo sem tamanho. O fato pode causar sensação por razões políticas, culturais, antropológicas, mas não deveria surpreender. A literatura não serve para nada, mas fornece um acervo de retratos da alma humana e estimula a nossa capacidade de análise. Quem lê criticamente não é pego de surpre...