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Mostrando postagens com o rótulo ortografia

BERINGELA OU BERINJELA?

Ah, a berinjela, ou beringela, como quiserem. Quem não passou pela penitência escolar de ter de demonstrar conhecimentos ortográficos na mais tenra idade, escolhendo entre as letras "G" ou "J"? Não lembro como completei a palavra quando era criança, mas lembro que não entendia a regra e que o único jeito para solucionar o problema era decorar a forma indicada pela professora. Suponho que metade da turma acertou o exercício e a outra metade errou a loteria. Mas a pior notícia é que berinjela está certo. E beringela também está. Beringela é uma forma mais antiga, que sugere, pelo uso da consoante "G", que a palavra foi plenamente integrada na língua. Os portugueses continuam escrevendo assim até hoje. Berinjela é de uso corrente no Brasil e indica, por meio da consoante "J", que a palavra é de origem estrangeira. A grafia com "J" ganhou espaço quando se tomou consciência de que a palavra tinha sido introduzida na língua por meio do...

"PLAIN LANGUAGE", PARA QUE TE QUERO

Você, leitor, que acha a ortografia do português complicada Você, leitor, que no momento da dúvida, desejou intimamente uma ortografia simples, sem exceções Você, leitor, que nunca nessa vida dura teve oportunidade de descobrir etimologicamente a sua língua Você, leitor, que foi desprezado pelos pedantes e humilhado pelos doutos Você, leitor sensato, que até concorda que não haveria mal em unificar fonética e escrita onde não há controvérsia Você, leitor, que assiste aflito às discussões sobre os acordos da língua e aguarda aflito pelo dia em que terá de escrever com outras regras de novo Você, leitor sofrido, estará perguntando: - "Plain Language"? Era só o que me faltava. Pois é. Eu também não pensava na "Plain Language" há tempos. Foi essa barbaridade de proposta chamada "Simplificando a Ortografia" que me fez lembrar dela. Sim, porque há modos e modos de simplificar a vida da gente. Cito dois parágrafos do texto do projeto "Simplificando...

QUE TEXTO HORRÍVEL!

“Respondeo o emperador de todas estas cousas ǭ  me auees dito creo eu firmemente. & digovos em verdade ǭ se o santo profeta jesu christo todo poderoso me quer dar saude no meu corpo segũdo a eu tijnha ǭ eu vingarey a sua morte & lhe cõprirey todo quãto lhe tenho pmetido.”  Antes de comentar o texto acima, gostaria de dar a fonte do material:  Leia aqui o artigo sobre o texto citato No artigo do professor  Silvio de Almeida Toledo Neto, reproduzido no blog, há uma boa descrição do texto do qual citei o pequeno trecho acima. Também gostaria de explicar que para o "e" usado como conjunção aditiva (no texto aparece com um sinal gráfico semelhante a um "7"), optei pela transcrição com o "&" - também chamado "comercial", pois em muitos textos impressos (com fins comerciais, e com uma grande consciência de economia, como veremos adiante) o " & " é utilizado para evidendar a sua função como conjunção. E também esse ...

FUTURO E (É) PASSADO DA LÍNGUA PORTUGUESA

E se a reforma levasse a uma simplificação radical, que eliminasse aqueles elementos acrescentados ao longo da história da língua para ajudar o leitor a pronunciá-la corretamente? Refiro-me aos acentos gráficos, cuja razão de ser explica-se fundamentalmente pela existência de um contexto cultural em que uma elite letrada assume a tarefa de guiar o falante (que conhece a sua língua!) na educação à leitura da forma escrita. Considerando (e desejando) o incremento da educação em todas as faixas sociais e a apropriação das variadas formas de expressão da língua (oral, escrita, não-verbal), por quanto tempo ainda sentiremos necessidade dos acentos gráficos? A queda do acento agudo nos ditongos abertos (p.ex. em “assembleia”) é um tímido esforço nesse sentido. O acordo poderia ter ido além nesse aspecto, embora eu compreenda as dificuldades para que isso aconteça em uma cultura extremamente apegada aos hábitos como é a nossa. Proponho uma pequena provocaçã...

ODE À IGNORANÇA

Esta é uma declaração de amor a Alberto Caeiro, o primeiro; e a Manoel de Barros, o último. Porque os amores são assim: restam aqueles que inauguram o curso de um rio e aqueles que Vinicius definiria serem os únicos que ficam. Faz anos: fui à livraria comprar o então último livro de Barros. ― Queria o “Livro das Ignoranças”. A vendedora corrigiu-me: ― Não é ignorança, é ig-no-RÂN-CIA. Claro, ela conhecia muito bem a matéria dos produtos que vendia: não se pode trabalhar em uma livraria e não ter certa cultura. Digamos, porém, que o meu amor dava-me asas para correr à livraria mais próxima de casa (nem a maior, nem a mais abastecida), chegando antes que a moça pudesse ver os últimos lançamentos e constatar que nada havia de estranho no meu pedido. A “ignorança” de Manoel de Barros é a ignorância no momento em que ainda ignora si mesma. É ignorância em estado puro. Ela me carrega para Alberto Caeiro, como se eu fosse Dona Flor. É inevitável. Caeiro dizia: “a única inocência é não pensar”...