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Mostrando postagens com o rótulo comunicação

A arte de lidar com nós

A partir dos quatro anos, começamos aprender a dar nós. A habilidade se desenvolve paralelamente à capacidade de unir sons, juntar sílabas, começar a aprender a escrever. É uma etapa fascinante, cheia de descobertas. Por volta de sete anos a criança já é capaz de amarrar os sapatos e correr para brincar, sem ajuda de ninguém. Já com a língua o caminho é bem mais longo. Não basta aprender a dar um nó no texto. É preciso aprender a técnica de soltar os nós. Mas a mais fascinante é a habilidade de lidar com os nós, apertando, afrouxando, mas sem se desfazer deles. Os nós são os pontos de tensão, onde o autor exerce a correta pressão sobre o leitor. Se puxa demais, o leitor desiste. Se deixa muito frouxo, o leitor escapa. Os pontos de tensão em um texto marcam o ritmo, como se o texto fosse uma verdadeira partitura. A tensão aumenta e cai lenta ou bruscamente. Em certos momentos o ritmo segue de forma linear, para o texto fluir e dar segurança ao leitor. Mas é fundamental ter clara a noç...

CERVANTES E A MÁQUINA DE FAZER RISADAS

1. Darcy Ribeiro conta em um texto que não consigo encontrar fora da minha memória o seguinte: que certa vez ele se encontrava em uma tribo isolada e que depois de seis meses chegou-lhe uma remessa com várias coisas que havia solicitado para realizar a sua pesquisa. Junto com os pedidos enviaram também um exemplar do Dom Quixote, livro que Darcy Ribeiro adorava. Conta ele que se deitou numa rede, abriu o livro e começou a repassar alguns trechos, dando umas boas gargalhadas. Quando se deu por satisfeito, foi fazer outra coisa. Um índio, que provavelmente nunca tinha visto um livro na sua vida, pegou o Quixote, deitou-se na rede, esfolheou o volume e começou a dar gargalhadas. O livro tinha se transformado nisso: em uma máquina de risadas. Todo livro é um poderoso instrumento de comunicação e no seu interior há um decodificador ao qual é preciso sintonizar para estabelecer o contato. Qualquer instrumento: livro, jornal, TV, internet pode ser uma máquina de risadas, de ódio, de prop...

A PÁTRIA, A MÃE E A LÍNGUA

                                                               "Amo-te, ó rude e doloroso idioma,                    Em que da voz materna ouvi: 'meu filho!'" Não é novidade o meu apreço pelo poema "Língua Portuguesa", de Olavo Bilac, do qual cito os dois versos acima.  O poema inteiro é uma declaração de amor pelo português. Assim como amorosa e radical é a definição de Fernando Pessoa, por meio do heterônimo Bernardo Soares: "Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem ...

Olha só...

Esta semana, a Nutella, um dos produtos italianos mais conhecidos no mundo, está lançando uma campanha de venda na Itália com expressões dialetais impressas no rótulo. Na imagem, vemos uma expressão usada no dialeto romanesco, usado em Roma, que significa "olha só...", indicando surpresa. Não é uma novidade esse tipo de "personalização" (ou "customização" - palavra introduzida no português a partir do inglês, e que possui muitos significados interessantes merecedores de um artigo específico). A Coca-cola também realizou uma campanha planetária, atraindo o consumidor à caça do seu nome, do nome de amigos ou de frases que exprimissem o espírito do momento em que se bebe o refrigerante. Em termos de uso da língua, o que há por trás dessas propostas? Há a percepção de que a empatia pode ser traduzida em termos linguísticos e pode ser usada com fins persuasivos. Esse tipo de estratégia vai além do objetivo de aumentar as vendas em geral, ela quer atingir ...

PARA QUE FALAR DO MUNDO QUANDO SE FALA DA LÍNGUA

Quem lê o Palavras Debulhadas já está acostumado a ler textos sobre coisas que aparentemente nada têm a ver com a língua. Só que a aparência engana. Eu costumo dizer assim: falar da estrutura da língua, falar da sua gramática, é louvável. Mas a língua é muito mais do que isso. A língua é um veículo poderoso de comunicação, que se conecta a gestos (que é linguagem não-verbal, mas extremamente comunicativa), que possui musicalidade (também essa uma linguagem não-verbal, mas que se relaciona mais diretamente à estrutura da língua por causa da fonética), que pode ter dimensão plástica (a literatura do século XX está aí para ensinar que a disposição da língua escrita na folha de papel comunica algo só por sua dimensão, cor e disposição espacial). Há um longo caminho a ser percorrido pela escola, para que o ensino deixe de apostar na gramática como elemento predominante da aprendizagem e valorize a língua em todos os seus aspectos - inclusive, mas não só, gramatical. Sei que isso vai se...