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Mostrando postagens com o rótulo língua portuguesa

Onde me encontrar

Queridos leitores, Este ano não foi possível manter o blog atualizado. Sigo publicando no Correio Riograndense e na Tua Rádio, onde poderão ler meus artigos semanais. O link para acesso às publicações está no cabeçalho do blog. Espero por vocês nesses canais. Assim que o tempo permitir, voltarei a compartilhar aqui no Palavras Debulhadas algumas reflexões específicas sobre a língua portuguesa na vida real. Obrigada a todos pela partilha até aqui.

O ANEL E O PADRE

Não acredito que se possa falar sobre fake news sem ler Antônio Vieira. Se eu fosse a soberana absoluta no reino das avaliações escolares, o Sermão da Sexagésima seria o ponto de partida para discorrer sobre o assunto. O que Antônio Vieira nos diz de tão interessante para valer um salto no passado, a fim de compreender o futuro que nos espera? Vieira nos dá uma lição sobre todos os aspectos fundamentais para a conversão. Explica e explicita esses aspectos por meio de uma estrutura lógica impecável. Guia o leitor na compreensão do que afirma, utilizando os próprios aspectos que apresenta. Vieira nos ensina que palavras não são o bastante. “Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras”, afirma. Muita gente, inclusive quem já possui diploma, anda precisando reler o Padre Vieira, penso comigo. Reler para se defender, reler para compreender, reler para reconhecer onde há somente palavras e onde ficaram as obras, reler para separar o que tem fu...

AULA DE PORTUGUÊS

Este é um artigo sobre a língua portuguesa. Não. É um artigo sobre a história. Não. É um artigo sobre a psicologia. Não. É um artigo sobre a política. Não. Este é um artigo sobre ser humano. Manchete: “Homem é morto com doze facadas”. Não, não era um homem, era Moa do Katendê, mestre de capoeira, referência cultural para artistas do nível de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Este artigo é sobre a língua portuguesa: eu sempre explico aos meus alunos a função das palavras indefinidas. Elas servem para ocultar e retirar responsabilidades. Se eu digo: “todos devem avaliar com cuidado esse crime abominável”, ninguém vai assumir a responsabilidade de fazer isso. Para usar uma palavra indefinida mais comprometedora, devo dizer, no mínimo: “cada leitor deve avaliar com cuidado esse crime abominável”. Cada leitor, ou seja, você, leitor, que ainda não abandonou este artigo. Mas espere: este não é um artigo sobre a língua portuguesa. É um artigo sobre a história. Em 1942, uma empresa na Alem...

SINAL VERMELHO: NÃO BUZINE

Dezenas de romanos foram multados na semana passada porque uma sinaleira travou no sinal vermelho e os motoristas buzinaram para sinalizar que precisavam atravessar o cruzamento. Formou-se uma fila gigantesca, os carros ficaram emaranhados, os guardas municipais ficaram perdidos e o sinal não abriu. Diante da indignação dos motoristas, a autoridade local fez valer a sua voz e saiu largando multa para cada automóvel que buzinava. Muitos protestaram, dizendo que foram punidos em lugar de outros: os guardas podem ter autoridade, mas nem sempre têm ouvido (ou capacidade de interpretação dos signos). Para ser honesta, casos como esses são raros em Roma. Em geral, a autoridade é mais prudente: na dúvida, deixa passar. O pessoal estaciona em fila dupla: quando os guardas municipais se aproximam, começam a tocar apito para que os motoristas retirem os carros do local proibido e escapem da infração. Uma chance não se nega a nenhum cristão. Mas os tempos estão mudando: os cidadãos estão organ...

10 MOTIVOS PARA GOSTAR DA LÍNGUA PORTUGUESA

Cada pessoa tem o seu encanto, cada língua também. Chego mesmo a pensar que o encanto de certas pessoas não seria o mesmo se elas falassem uma língua diferente: o encanto muda de acordo a língua que a pessoa está falando. O efeito é diferente nos nossos ouvidos. Para nós, falantes de português, isso é ainda mais evidente, porque apenas nós possuímos essa frase imortal: "A minha pátria é a língua portuguesa" (Livro do Desassossego, Bernardo Soares/Fernando Pessoa). Circulamos em um terreno fluido desde o berço, em que as fronteiras são mais culturais e emotivas do que políticas e nacionais. Esse percurso linguístico nos forma e nos transforma. Nos leva ao passado, nos incorpora às nossas raízes, nos faz sonhar com terras distantes. Se isso não basta, listo aqui outros bons motivos para gostar da língua portuguesa: 1. Uma língua que agrega, não exclui Nós detestamos usar palavras estrangeiras. Ao agregar palavras de outros idiomas, adaptamos os termos à nossa ortografia e...

TENTE ENTENDER: DESAFIAR A LÍNGUA FAZ PARTE DO PROCESSO

Tudo começou quando resolvi tomar uma coca-cola e me deparei com este copo aqui: Sério: por que um produtor resolve "desmontar" o próprio nome, ferindo todas as regras de divisão silábica? Ah, os publicitários e os gráficos disso entendem melhor que os professores, geralmente. Eles acertaram pelo menos um alvo: chamaram a minha atenção, salta aos olhos que algo parece estar errado e quando a gente procura um erro presta mais atenção, quer dizer, ficamos mais tempo fixando na memória o nome da marca. Além disso, tem uma brincadeira lexical, que não passa em branco, com a palavra "on". Realmente, a gente não tem como não ficar ligado no esquema gráfico criado. Como se diz, é uma sacada. Quando a gente vê essas coisas circulando, autorizadas por empresas, criadas por publicitários bem formados e bem pagos, dá até uma certa desmoralização. Como vou explicar para o meu aluno a importância da divisão silábica? Ah, uma explicação tem sempre! É preciso lembrar que ...

ATIRARAM O PAU NA LÍNGUA, MAS O GATO NÃO MORREU

Em inglês, a palavra do ano foi "pós-verdade". Em italiano, a palavra foi "webete" (sem tradução em português), mas sinônimo - talvez com um traço de ironia - de outro neologismo: "troll". Em português já absorvemos esse inglesismo, criando o verbo "trollar", com o famigerado gerúndio "trollando", e o substantivo "trollagem". Um pecado? A consoante L, que não deveria ser dupla. Caso o termo pegue, os dicionários se encarregarão de solucionar o problema. O que pensar desses sinais? São um sintoma de vitalidade da língua. Apenas línguas mortas não estão abertas a neologismos (embora também isso nem sempre seja verdade). Não sei qual foi a palavra do ano em português, mas os números não decepcionam: o Dicionário Priberam publicou um comunicado  no qual informa que em 2016 já foram acrescentados 840 verbetes à publicação eletrônica, explicando também os critérios adotados para a inclusão de uma palavra em vez de outra. De fa...

PORTESTE: Teste os seus conhecimentos

Gostaria de informar que criei um pequeno aplicativo para testar conhecimentos da língua portuguesa. O link para baixar gratuitamente o aplicativo é este aqui: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.wPORTESTE&hl=it Este é o ícone para identificar o aplicativo. Bom divertimento e deixem os comentários de vocês. Obrigada!

VOCÊ FALA PORTUGUÊS? ENTÃO AS LÍNGUAS INDÍGENAS SÃO UM PROBLEMA SEU

Confesso: o meu primeiro "estou estarrecida" de 2016 vai para a Pátria Educadora. Cito o veto da nossa Presidenta em relação ao projeto de lei que daria um lugar ao sol para as línguas indígenas no nosso mapa linguístico: “Apesar do mérito da proposta, o dispositivo incluiria, por um lado, obrigação demasiadamente ampla e de difícil implementação por conta da grande variedade de comunidades e línguas indígenas no Brasil. Por outro lado, a obrigação de se ministrar o ensino profissionalizante e superior apenas na língua portuguesa inviabilizaria a oferta de cursos em língua estrangeira, importante para a inserção do País no ambiente internacional. Por fim, a aplicação de avaliação de larga escala poderia ser prejudicada caso se tornasse obrigatória a inclusão de todas as particularidades das inúmeras comunidades indígenas do território nacional.” Presidência da República Federativa do Brasil, Mensagem nº 600, de 29 de dezembro de 2015. Eis os artigos vetados: "A e...

ISSO É EDUCAÇÃO QUE SE APRESENTE?

Educação vem de berço. É o que se diz, e é verdade. Boa ou má que seja, toda criança recebe um modelo que, de acordo com as suas inclinações, transforma em paradigma seu. Atenção: eu não disse que o modelo é transferido, eu disse que o modelo é transformado, de acordo com as inclinações de cada um. Numa família, em geral, os filhos recebem o mesmo modelo, mas cada um processa de forma individual os estímulos recebidos. Alguns recebem péssimos exemplos em casa e chegam à escola parecendo pequenos lordes. Outros saem de contextos super controlados (e poderia dizer que o excesso de controle é um grande problema) e quando se encontram fora do ninho mostram o pior de si, ou melhor, aquilo que podem compartilhar. Eu tive uma mãe muito cuidadosa e também bastante controladora. Bastava um olhar para a Dona Angelina me transformar em estátua. E quando o olhar não bastava, ela vinha com a sua frase típica: "Isso é educação que se apresente?" Era o prelúdio de um longo sermão ...

BÚSSOLAS

Eles falam por si: Paulo Freire - o universo vocabular e os oprimidos. Aprender a ler e escrever estudando uma hora por dia, apesar da pobreza, apesar das dificuldades da vida. Ele foi lá, acreditou, e o povo conseguiu. https://www.youtube.com/watch?v=EzjY0x37E88 Rubem Alves - aprender a aprender. Um educador é uma pessoa que ama as crianças. Mas não basta amar as crianças, ele tem de ter vontade de ensinar o mundo às crianças. https://www.youtube.com/watch?v=3_WuJdw-MEo Ken Robinson - todos somos diferentes e diversos. O problema é que o programa educacional não é baseado na diversidade, mas na conformidade. A conformidade é um horizonte muito restrito para nós, seres humanos. https://www.youtube.com/watch?v=s24IgYIK59k&feature=youtube_gdata_player Os três educadores têm um ponto em comum: a curiosidade; uma característica humana essencial para despertar o desejo de descobrir e de aprender. Não gosto de falar muito quando os mestres estão com a palavra. Quero apena...

RETROSPECTIVA: A LÍNGUA PORTUGUESA RUMO AO FUTURO

Mais um ano se encerra. E a língua segue o seu curso. Para quem pensa que retrospectiva faz sempre balanço, aqui vão notícias que abrem perspectivas para o português. Janeiro - É apresentado um protótipo de aplicativo para a tradução do português para a linguagem brasileira de sinais (Libras). A língua amplia as suas fronteiras quando se liga a outras linguagens. Ótima notícia para começar o ano. Favereiro - Até o final do século XXI, o português contará com 350 milhões de falantes nativos, aponta estudo. Março - O Papa não é brasileiro. Mas é gaúcho. Fronteiras compartilham culturas e saberes ultrapassam as línguas nacionais. Abril - O Parlamento da Região Autônoma da Galícia apresenta uma proposta interpartidária a favor da incorporação progressiva do ensino do português na grade curricular e futura exigência em concursos públicos; recepção aberta em rádio e televisão de programação falada em português; e participação formal da Galícia em eventos e em instituições internacionais...

UMA VULGAR ELOQUÊNCIA

A interpretação é a maior tentação para a ciência. Ela está aí, e vamos fazendo ciência sem poder prescindir dos riscos a que nos expõe. Às vezes é difícil distinguir a causa e o efeito, o vetor e a característica do fenômeno. A grande polêmica, que aflora cotidianamente, sobre o Acordo Ortográfico, é só um exemplo da guerra intestina que se trava nas áreas que envolvem a língua. Questão de opinião? Questão de vaidade intelectual? Não, questão fundamental, porque a língua é veículo de comunicação ou de desentendimento entre os homens. Mas na área da língua portuguesa, tornou-se também terreno de luta pela defesa da tradição ou do avanço, luta por prestígio geográfico, luta comercial. O Acordo Ortográfico virou uma espécie de bode expiatório para toda sorte de desavença. Para início de conversa, preciso esclarecer aos leitores de que lado estou: após um breve período de ceticismo, aprovei o espírito do Acordo. Falar a partir dessa posição muda tudo e é claro que receberei muitas crít...

DIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

Para comemorar o Dia da Língua Portuguesa leio um poema de Fernando Pessoa, porque a poesia exprime plenamente o seu lirismo quando ouvida. Cada interpretação é única e imperfeita, mas, se assim não fosse, que língua promissora seria a nossa?