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Mostrando postagens com o rótulo figuras de linguagem

DO PALAVRÃO À PÓS-VERDADE

Parece língua do "pê", mas se trata de estratégia comunicativa. O fato chamou a atenção dos jornais italianos: um partido, surgido da irritação dos eleitores em relação às políticas do governo, organizava comícios usando como chamada o mais conhecido e utilizado palavrão em língua italiana. Para simplificar e tornar digerível às camadas amplas da população, sem ferir a suscetibilidade de ninguém, os encontros passaram a ser denominados V-Day.  Com o tempo, o partido cresceu, elegeu-se e governa. Os militantes e também as lideranças do partido continuaram a utilizar insultos como forma de ataque aos partidos e aos políticos adversários. Era a técnica para surfar na onda da insatisfação da população, que deu alguns resultados. Agora que o partido está entre os maiores da Itália, os dirigentes decidiram que os palavrões não podem mais ser utilizados. E os pré-candidatos, que por muito tempo usaram a técnica, foram excluídos das listas para a escolha interna dos candidatos à...

E-RONIA, O TRIUNFO DA RETÓRICA NA ERA DAS REDES SOCIAIS

"Só sei que nada sei". Um dos momentos mais gloriosos da ironia encontra-se nos primórdios da filosofia ocidental. Graças aos discursos platônicos, hoje existe uma categoria específica de ironia, a ironia socrática. Para "parir" as ideias, Sócrates, a personagem dos discursos platônicos, reunia para um bate-papo uma plateia, à qual confessava não conhecer determinado assunto, mas estar muito interessado em entendê-lo. A conversinha mansa ia adiante entre uma pergunta e uma resposta e aos poucos o conhecimento emergia. Era uma mentira descarada essa do Sócrates, porque ele sabia bem do que falava, mas se valia da ironia ("eu não sei, não...") para alimentar o debate e conduzir os participantes às suas ideias. Esse "emergir" gradual é o chamado método maiêutico, que significa "parir". Parir ideias. Escrever a tese foi um parto. Escrever um livro é como ter um filho. O nosso cotidiano ainda está impregnado dessas ideias lançadas n...

COMO DIZER "PROBLEMA" E COMO EXORCIZÁ-LO

Quando fico submersa por mensagens que exaltam o lado positivo da vida, a bondade que está dentro de nós, a felicidade a todo custo, penso: como pode uma sociedade "do bem" ser tão e tão continuamente violada pelo mal? Será que falta determinação em fazer o bem ou falta determinação em cortar o mal pela raiz? Aposto que na nossa cultura o problema está na nossa pouca força para enfrentar o mal. A gente nega, diz que não foi por querer, encontra desculpas indesculpáveis e tem ojeriza à responsabilidade. A culpa é sempre do outro e "eu não sei, não vi, nem quero saber": não é problema meu. Nisso, o uso da língua é exemplar. Nós temos dois padrões para escapar daquilo que nos incomoda: usando a metáfora ou recorrendo à catacrese, quer dizer, a um termo que no contexto serve como sinônimo, mas sinônimo não é. Quando temos um problema, mas não queremos dizer de forma explícita, recorremos a metáforas como: abacaxi, pepino, batata quente, zebra (usadas para cois...