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Mostrando postagens com o rótulo história

Aula de culinária para entender a gramática

Os italianos adoram comer. E adoram cozinhar. A mesma paixão que revelam quando se dividem entre times rivais, eles revelam quando se trata de defender a receita original e a mais original de um prato! A mesma paixão que revelam ao defender a sua seleção, mostram ao unirem-se contra qualquer tentativa de internacionalizar seus pratos, desfigurando a cor local. O professor Massimo Montanari, da Universidade de Bolonha, escreve sobre o sentido de originalidade em um artigo do livro "Il Pregiudizio Universale" (um jogo de palavras com a expressão "juízo universal"; mas o título deve ser traduzido como "o preconceito universal", "pregiudizio" é um falso cognato). No caso, a noção de receita original parte de um típico prato da cozinha do Lácio, a massa à carbonara. O autor explica que há inúmeras receitas na rede e que o uso de alguns ingredientes chega a causar inimizades. É o amor pela cozinha e pela tradição. Quando uma receita é assinada por um ...

OURO, INCENSO, MIRRA... E MORTADELA!

Há palavras que vivem aventuras incríveis: quando a etimologia não dá conta do recado, entram em jogo as lendas, que, se não explicam, inspiram. Uma dessas palavras é mirra. Como sugere o título, a mirra está no famoso episódio dos Reis Magos, tendo sido presenteada por suas propriedades aromáticas (mas também como alusão à paixão que seria vivida por Cristo nas horas derradeiras). De fato, a mirra é um ingrediente usado na perfumaria, mas também por suas propriedades medicinais, especialmente anti-sépticas. Sob forma de incenso, também era utilizada durante funerais e na cremação, por sua aromaticidade. Além disso, desde o Egito antigo, conhecem-se as propriedades da mirra úteis no processo de embalsamação.  Daí o termo "mirrado", emagrecido, ressequido, comparável à mumificação. Ainda na Antiguidade, uma outra planta é denominada "mirrina" por exalar um perfume que lembra a mirra: trata-se da murta, cujas frutas silvestres são utilizadas de várias formas: em doc...

FORMA CONTRA NATUREZA

Por que o português tem tantas regras? É a pergunta que ouço frequentemente dos meus alunos. Resposta: porque é uma língua muito formalizada. E por que tem tantas exceções? É a segunda pergunta que mais ouço. Resposta: porque é uma língua imersa na história. A presença de regras e de exceções às regras é algo típico da nossa língua. Porém, há mais a ser dito: o português é uma língua estruturada para pessoas insipientes/incipientes. Quer dizer, possui regras de morfologia e ortografia estruturadas para pessoas com pouca cultura, por isso acessível também aos principiantes.  É justamente o alto grau de formalização da gramática que determina a luta com a natureza da língua. De um lado, os instrumentos gramaticais orientam e controlam a escrita; de outro, a evolução natural da língua (intimamente ligada às histórias pessoais, aos eventos históricos e aos fenômenos sociais) viola as regras que tentam conter os processos de transformação. Isso, porém, é inevitável, pois a história...

UMA VULGAR ELOQUÊNCIA

A interpretação é a maior tentação para a ciência. Ela está aí, e vamos fazendo ciência sem poder prescindir dos riscos a que nos expõe. Às vezes é difícil distinguir a causa e o efeito, o vetor e a característica do fenômeno. A grande polêmica, que aflora cotidianamente, sobre o Acordo Ortográfico, é só um exemplo da guerra intestina que se trava nas áreas que envolvem a língua. Questão de opinião? Questão de vaidade intelectual? Não, questão fundamental, porque a língua é veículo de comunicação ou de desentendimento entre os homens. Mas na área da língua portuguesa, tornou-se também terreno de luta pela defesa da tradição ou do avanço, luta por prestígio geográfico, luta comercial. O Acordo Ortográfico virou uma espécie de bode expiatório para toda sorte de desavença. Para início de conversa, preciso esclarecer aos leitores de que lado estou: após um breve período de ceticismo, aprovei o espírito do Acordo. Falar a partir dessa posição muda tudo e é claro que receberei muitas crít...

POLITICAMENTE CORRETO - ENTRE A IGNORÂNCIA E A DISCRIMINAÇÃO

Politicamente incorreto? Depende da situação. Esta reflexão nasce da leitura de um artigo publicado em um jornal italiano esta manhã. Fiquei indignada com o uso da palavra "suk" (referência a "suq", mercado em árabe e, aliás, raiz da nossa palavra "açougue" ou "casa de carnes"). No texto, a jornalista referia-se a "Suk Termini" para descrever o estado de degradação da região próxima à estação central de Roma. Um fato imperdoável, que alimenta a discriminação em relação à cultura árabe e que certamente não precisa da mãozinha de uma jornalista para acentuar-se em tempos de xenofobia. Perdoaria, se se tratasse de ignorância. Mas jornalistas não podem escorregar no a-b-c da etiqueta da língua. A questão é delicada e no Brasil tem ocorrido um verdadeiro patrulhamento em relação a isso. Jornais, livros, a escola, os movimentos sociais e até o governo promovem a discussão dos termos que devem ser evitados para que ninguém se sinta ofen...