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Mostrando postagens com o rótulo léxico

ATIRARAM O PAU NA LÍNGUA, MAS O GATO NÃO MORREU

Em inglês, a palavra do ano foi "pós-verdade". Em italiano, a palavra foi "webete" (sem tradução em português), mas sinônimo - talvez com um traço de ironia - de outro neologismo: "troll". Em português já absorvemos esse inglesismo, criando o verbo "trollar", com o famigerado gerúndio "trollando", e o substantivo "trollagem". Um pecado? A consoante L, que não deveria ser dupla. Caso o termo pegue, os dicionários se encarregarão de solucionar o problema. O que pensar desses sinais? São um sintoma de vitalidade da língua. Apenas línguas mortas não estão abertas a neologismos (embora também isso nem sempre seja verdade). Não sei qual foi a palavra do ano em português, mas os números não decepcionam: o Dicionário Priberam publicou um comunicado  no qual informa que em 2016 já foram acrescentados 840 verbetes à publicação eletrônica, explicando também os critérios adotados para a inclusão de uma palavra em vez de outra. De fa...

LÁ VAI BARÃO!

Quem tem uma certa idade lembra da expressão usada nos anos Oitenta para referir-se ao dinheiro no Brasil. Era época de inflação altíssima, ou hiperinflação, e as notas de mil cruzados, com a imagem do Barão de Rio Branco escorriam dos bolsos como areia entre os dedos. O "barão", gramaticalmente falando, é uma metonímia. O Barão, sendo também nome de pessoa, é mais um dos tantos epônimos que usamos no cotidiano em português, quer dizer, uma palavra originária de um nome próprio que se presta para nomear outra coisa. No Brasil usamos muitos epônimos, e não apenas na área científica, na qual uma norma internacional recomenda a sua abolição, mas persistem. Na medicina, por exemplo, há inúmeras doenças cujos nomes são associados a nomes de pessoas - geralmente pacientes ou médicos envolvidos com o diagnóstico. É o caso do mal de Parkinson, do mal de Chagas, da síndrome de Asperger, mas também outros nomes próprios podem estar na base de um epônimo, como a síndrome de Estocolm...

O QUE É PRECISO PARA LER EM PORTUGUÊS?

Na universidade eu tinha um colega que lia dicionário. Não é brincadeira. Hoje é professor universitário, um profissional sério e competente. Mas é óbvio que esse resultado profissional não se deve à leitura do dicionário. Para não descredenciar meu colega, que respeito muito, é preciso explicar até o fim o seu método: ler dicionário era uma espécie de rito noturno, utilizado para desafiar a própria memória, para descobrir alguma palavra nova, para refletir sobre o léxico. Um velho mito consolidado entre professores de língua é que o conhecimento de um idioma é diretamente proporcional ao número de vocábulos utilizado pelos estudantes. Há inclusive pesquisas que mostram a relação entre o número de palavras utilizadas e a faixa salarial em que o profissional pode se colocar. Essa é uma grande falácia. Se assim fosse, os professores de português, os gramáticos e os linguistas receberiam uma remuneração milionária, e os físicos, com sua conhecida concisão, provavelmente seriam condena...