Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo acordo ortográfico

A revolução francesa contra o circunflexo

Banido. Adieu, caro circunflexo. Pois é, é a França entrando na onda da reforma ortográfica. Dizem que para além dos Pirineus a briga entre defensores do circunflexo e os seus opositores está tão aguerrida quanto a batalha pelo nosso acordo ortográfico. A novidade é esta: o uso do circunflexo não será mais obrigatório na língua francesa. Mais ou menos como acontece no Brasil, onde muitas pessoas escrevem mal, mas os temas ligados ao português desencadeiam ódios e inimizades, da mesma forma, na França, a língua é tema sério, defendido pelo Estado, um patrimônio nacional. E as mudanças no idioma devem passar pelo diário oficial, como o nosso acordo ortográfico. Aqui uma das charges sobre o tema Novamente, o que está por trás da polêmica é o valor da língua como patrimônio cultural e como vetor de comunicação. Os que acusam a reforma dizem que a simplificação dá aval à superficialidade. Os defensores afirmam que a discussão sobre a complexidade da língua francesa, que cria dificu...

FAZER ACORDO É PRECISO, SIMPLIFICAR NÃO É PRECISO

Talvez nem todos os leitores lembrem, mas eu reconheço: defendi o Acordo Ortográfico de 2008 desde o início. Então, como é que agora eu ataco de forma tão veemente a proposta de simplificação da ortografia? (Notícia, aliás, desmentida pelo Senador, mas para mim a emenda ficou pior que o soneto, a partir do momento em que ele admite que há uma comissão estudando questões referentes ao Acordo). Bem, a questão sobre a qual pouca gente fala, mas muito incide na nossa escrita, é a da história da língua. Se a cultura da descoberta da história da língua e da sua ortografia não chegar pelo menos ao ensino médio, os falantes nunca terão oportunidade formal de entender realmente a ortografia da nossa língua. Vou sintetizar muito, só para dar um gostinho e atiçar a curiosidade (na rede há um monte de informações, desde ensaios acadêmicos até artigos informativos sobre o tema). A história da ortografia da língua portuguesa é dividida em três fases: a da escrita fonética, a da escrita pseudo-e...

DEIXEM A LÍNGUA VIVER EM PAZ!

Gente, que mania essa de ficar mudando ortografia por decreto! Não está de bom tamanho a polêmica internacional sobre o novo acordo ortográfico? Até parece que os nossos parlamentares, doutos em linguística e gramática, pegaram o gostinho. Ilustres parlamentares: a gente não mexe em time que está ganhando! Deixem a língua viver em paz! Quando a gente começa a mexer muito, traça um destino: morte ou vida artificial. É assim com todas as línguas que não se desenvolvem espontaneamente. As línguas artificiais, como o esperanto, podem ser apenas língua instrumental, nunca serão língua de identidade cultural. Já as línguas mortas, como o latim, sobrevivem graças ao esqueleto bem conservado, mas não produzem inovação. Língua viva é como a gente: aventura-se, deixa-se influenciar por outras, às vezes se perde, às vezes retoma o seu caminho com elegância. E haja elegância! O nosso falar coloquial está cheio de expressões de ilustre origem, a gente nem se dá conta disso (por conhecer pou...

SOU CAPITÃ!

Se o barco do acordo ortográfico está à beira do naufrágio, eis-me aqui com a minha vassoura: sou capitã! E vou ficar agarrada ao mastro, vou ser a última a pular para o mar. Nem sempre que falo de ortografia lembro de aprofundar a questão da convenção que subjaz essas escolhas. Falei, sem entrar na polêmica, em um dos últimos artigos do blog:  leia aqui o artigo. A minha modesta opinião, de grumete da embarcação, é que os linguistas e os filólogos da nossa língua portuguesa não conseguem chegar a um acordo sobre a questão da reforma ortográfica. Uns, projetados para o futuro de uma língua global e globalizada, de língua franca, usada para trocas comerciais e projetos políticos mundiais; os outros, projetados para o passado e para a tradição, cuidadosos em preservar uma língua que todos os dias corre o risco de morrer com os velhos que se vão e levam consigo histórias, modos de falar, termos antigos que nem sempre são conservados pelo papel. Entendo a diferença de perspectiva...

UMA VULGAR ELOQUÊNCIA

A interpretação é a maior tentação para a ciência. Ela está aí, e vamos fazendo ciência sem poder prescindir dos riscos a que nos expõe. Às vezes é difícil distinguir a causa e o efeito, o vetor e a característica do fenômeno. A grande polêmica, que aflora cotidianamente, sobre o Acordo Ortográfico, é só um exemplo da guerra intestina que se trava nas áreas que envolvem a língua. Questão de opinião? Questão de vaidade intelectual? Não, questão fundamental, porque a língua é veículo de comunicação ou de desentendimento entre os homens. Mas na área da língua portuguesa, tornou-se também terreno de luta pela defesa da tradição ou do avanço, luta por prestígio geográfico, luta comercial. O Acordo Ortográfico virou uma espécie de bode expiatório para toda sorte de desavença. Para início de conversa, preciso esclarecer aos leitores de que lado estou: após um breve período de ceticismo, aprovei o espírito do Acordo. Falar a partir dessa posição muda tudo e é claro que receberei muitas crít...

BEM-ME-QUER MALMEQUER

       Antigamente se escrevia assim: agora, com o Novo Acordo Ortográfico, continua igual. O uso do hífen é a pedra no sapato para os professores que tentam explicar as novas regras ortográficas. Mas antes, também não era? Era, era. Levante a mão quem era capaz de propor sem pestanejar a correta ortografia de uma palavra nova. Palavra listada em gramática não vale. Aqui a questão é de princípio, não de memória.             O Novo Acordo Ortográfico veio colocar a mão nesse vespeiro. Quais são os critérios que adotamos para utilizar ou não o hífen em português? A questão permenece aberta. Pronto. O problema não está resolvido, mas já temos um ponto de partida.             E nas outras línguas, tudo está certinho, ninguém tem dúvidas? Tem. Em inglês, basta confrontar meia dúzia de jornais cotidianamente para ver como as expressões compostas aparecem n...