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UMA VULGAR ELOQUÊNCIA

A interpretação é a maior tentação para a ciência. Ela está aí, e vamos fazendo ciência sem poder prescindir dos riscos a que nos expõe. Às vezes é difícil distinguir a causa e o efeito, o vetor e a característica do fenômeno. A grande polêmica, que aflora cotidianamente, sobre o Acordo Ortográfico, é só um exemplo da guerra intestina que se trava nas áreas que envolvem a língua. Questão de opinião? Questão de vaidade intelectual? Não, questão fundamental, porque a língua é veículo de comunicação ou de desentendimento entre os homens. Mas na área da língua portuguesa, tornou-se também terreno de luta pela defesa da tradição ou do avanço, luta por prestígio geográfico, luta comercial. O Acordo Ortográfico virou uma espécie de bode expiatório para toda sorte de desavença. Para início de conversa, preciso esclarecer aos leitores de que lado estou: após um breve período de ceticismo, aprovei o espírito do Acordo. Falar a partir dessa posição muda tudo e é claro que receberei muitas crít...

A LÍNGUA E O ESPÍRITO OLÍMPICO

Lealdade, união, confraternização, encontro. Os jogos olímpicos exaltam a paz e o lado positivo da competitividade. E a língua? Como se sabe, a língua pode ser um poderoso instrumento de controle. Nem sempre é veículo de democratização. Mas as olimpíadas da língua portugesa existem para a ajudar a difundir a sua importância. O que pode ser feito? Incentivar a leitura de forma sistemática e interdisciplinar, porque não se lê apenas nas aulas de português e não se lê somente literatura. Além disso, incentivar a escrita nas suas várias modalidades: técnica, criativa, divulgativa, persuasiva, poética etc. É hora de ler nas aulas de ciências, de biologia, de física e de estudar melhor os registros linguísticos desses setores. É hora de nós, professores de língua, acolhermos o desafio de falarmos sobre os mais diversos assuntos, darmos os passos necessários para uma interdisciplinaridade de fato.  É preciso que este espírito prevaleça para que a língua seja cada vez mais um vetor rele...

POLITICAMENTE CORRETO - ENTRE A IGNORÂNCIA E A DISCRIMINAÇÃO

Politicamente incorreto? Depende da situação. Esta reflexão nasce da leitura de um artigo publicado em um jornal italiano esta manhã. Fiquei indignada com o uso da palavra "suk" (referência a "suq", mercado em árabe e, aliás, raiz da nossa palavra "açougue" ou "casa de carnes"). No texto, a jornalista referia-se a "Suk Termini" para descrever o estado de degradação da região próxima à estação central de Roma. Um fato imperdoável, que alimenta a discriminação em relação à cultura árabe e que certamente não precisa da mãozinha de uma jornalista para acentuar-se em tempos de xenofobia. Perdoaria, se se tratasse de ignorância. Mas jornalistas não podem escorregar no a-b-c da etiqueta da língua. A questão é delicada e no Brasil tem ocorrido um verdadeiro patrulhamento em relação a isso. Jornais, livros, a escola, os movimentos sociais e até o governo promovem a discussão dos termos que devem ser evitados para que ninguém se sinta ofen...

O QUE É PRECISO PARA LER EM PORTUGUÊS?

Na universidade eu tinha um colega que lia dicionário. Não é brincadeira. Hoje é professor universitário, um profissional sério e competente. Mas é óbvio que esse resultado profissional não se deve à leitura do dicionário. Para não descredenciar meu colega, que respeito muito, é preciso explicar até o fim o seu método: ler dicionário era uma espécie de rito noturno, utilizado para desafiar a própria memória, para descobrir alguma palavra nova, para refletir sobre o léxico. Um velho mito consolidado entre professores de língua é que o conhecimento de um idioma é diretamente proporcional ao número de vocábulos utilizado pelos estudantes. Há inclusive pesquisas que mostram a relação entre o número de palavras utilizadas e a faixa salarial em que o profissional pode se colocar. Essa é uma grande falácia. Se assim fosse, os professores de português, os gramáticos e os linguistas receberiam uma remuneração milionária, e os físicos, com sua conhecida concisão, provavelmente seriam condena...

A LÍNGUA, O LIMÃO E A CEBOLA

Quase todo estudante conhece o que se diz dos maus professores: “quem não sabe ensina”. E quem frequenta as salas dos professores sabe o comentário sobre os alunos: “falam mal”. É uma queda-de-braço sem fim. A culpa é de quem não ensina ou de quem não aprende? A arte de transformar limão em limonada Hoje o velho provérbio é conhecido como talento para solução de problemas ou “problem solving attitude”. É uma atitude rara nos mestres ruins e nos alunos preguiçosos. É a grande lacuna que se evidencia quando um professor diz: “aquele aluno não tem jeito” ou quando o aluno se justifica com palavras do tipo: “não consigo porque é muito difícil”. Mas é uma arte mais necessária do que nunca. Professor que vê no seu aluno o “limão” da vez, deixando de ver nele uma oportunidade, comete um grave equívoco: não só deixa de fazer a diferença para o aluno, mas também deixa de perceber que pode ser um bom professor. Aluno que usa a dificuldade como álibi tem um caminho de fracasso ou de suc...