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Mostrando postagens com o rótulo educação

Escola: construção ou desconstrução?

A rede está aí. A globalização está aí. A pós-modernidade está aí. Não é opinião, é um fato. Isso significa lidar com uma realidade na qual tudo é colocado em discussão, na qual a informação - correta ou falsa - difunde-se em milésimos de segundo, na qual reina a relativização, e na qual os saudosistas de um mundo linear e hierárquico continuam usando o giz como arma principal. Lembro de uma das primeiras vezes em que apresentei um estudo sobre a pós-modernidade na literatura: um dos professores na banca de avaliação estava chocado. Não entendeu que a pós-modernidade não é uma ideologia, é uma condição à qual se responde literariamente, arquitetonicamente, sociologicamente, economicamente. E as respostas não são unívocas: há respostas que acentuam a distorção de forma irônica, outras reforçam a imagem do mundo que conhecemos hoje e que, graças a essa realidade globalizada, é também um mundo total apenas na aparência. Nunca como hoje as complexidades foram tão intensas, a necessidade...

A ARTE DE PERGUNTAR

Não acredito! Este é um tema que eu adoro, como é que nunca dediquei um artigo à questão? O assunto é: a arte de fazer perguntas. Eu sempre fui muito tagarela e despachada. E sempre achei que perguntar não ofende. Que quem tem boca vai a Roma... Eu era o público perfeito para qualquer conferencista. Quando caía aquele silêncio mortal na plateia, eu era aquela que fazia uma pergunta para alívio geral dos autores. Mas é claro que fazer pergunta não é encher linguiça. Há dois tipos odiados nas plateias: aquele se levanta para fazer um comentário que se transforma em conferência-bis e aquele que adora polêmica e é chamado carinhosamente de seminarkiller. Uma pergunta bem feita é outra coisa: não só abre a discussão, como evidencia os aspectos mais salientes no discurso do interlocutor. Aprender a fazer perguntas é uma questão de língua e de educação. A questão educativa: A nossa experiência formal com os questionamentos inicia com a escola, não somente nas situações cotidianas...

ISSO É EDUCAÇÃO QUE SE APRESENTE?

Educação vem de berço. É o que se diz, e é verdade. Boa ou má que seja, toda criança recebe um modelo que, de acordo com as suas inclinações, transforma em paradigma seu. Atenção: eu não disse que o modelo é transferido, eu disse que o modelo é transformado, de acordo com as inclinações de cada um. Numa família, em geral, os filhos recebem o mesmo modelo, mas cada um processa de forma individual os estímulos recebidos. Alguns recebem péssimos exemplos em casa e chegam à escola parecendo pequenos lordes. Outros saem de contextos super controlados (e poderia dizer que o excesso de controle é um grande problema) e quando se encontram fora do ninho mostram o pior de si, ou melhor, aquilo que podem compartilhar. Eu tive uma mãe muito cuidadosa e também bastante controladora. Bastava um olhar para a Dona Angelina me transformar em estátua. E quando o olhar não bastava, ela vinha com a sua frase típica: "Isso é educação que se apresente?" Era o prelúdio de um longo sermão ...

BÚSSOLAS

Eles falam por si: Paulo Freire - o universo vocabular e os oprimidos. Aprender a ler e escrever estudando uma hora por dia, apesar da pobreza, apesar das dificuldades da vida. Ele foi lá, acreditou, e o povo conseguiu. https://www.youtube.com/watch?v=EzjY0x37E88 Rubem Alves - aprender a aprender. Um educador é uma pessoa que ama as crianças. Mas não basta amar as crianças, ele tem de ter vontade de ensinar o mundo às crianças. https://www.youtube.com/watch?v=3_WuJdw-MEo Ken Robinson - todos somos diferentes e diversos. O problema é que o programa educacional não é baseado na diversidade, mas na conformidade. A conformidade é um horizonte muito restrito para nós, seres humanos. https://www.youtube.com/watch?v=s24IgYIK59k&feature=youtube_gdata_player Os três educadores têm um ponto em comum: a curiosidade; uma característica humana essencial para despertar o desejo de descobrir e de aprender. Não gosto de falar muito quando os mestres estão com a palavra. Quero apena...

A GUERRA SANTA DA LETRA CURSIVA

Em Hamburgo, na Alemanha, já é assim: é obrigatório alfabetizar usando letra de forma. Motivo: é o tipo de escrita mais comum no cotidiano das crianças (e dos adultos também), que vivem rodeadas de jornais, placas, avisos, livros escritos em letra de imprensa. Não é mais preciso aprender duas grafias diferentes, explicam as autoridades, mas quem quiser pode escolher o exercício de caligrafia como disciplina opcional. A Finlândia, segundo fontes jornalísticas, também está pensando em seguir o mesmo caminho. As atividades de motricidade fina poderiam ser transferidas para as artes visuais. No Brasil, a professora Magda Soares (professora emérita da Faculdade de Educação da UFMG) explica os motivos dessa preferência: na fase em que a criança está descobrindo a relação entre letras e fonemas, a letra de forma permite uma melhor distinção gráfica e é mais simples de escrever nessa etapa de treino das habilidades motórias. Alguns vão além, dizendo que o tempo "perdido" para ...

LEMBREI: SOU PROFESSORA

Há um ano trabalho oficialmente como tradutora. A tradução não é uma atividade nova na minha vida profissional, mas até o ano passado era o meu segundo trabalho, embora fosse o mais importante economicamente. Isso é só para explicar o que todo mundo sabe: que professor ganha muito mal. Professores bem remunerados são tão raros quanto os pandas da China, quanto os tigres de Bengala, quanto os ursos pardos da Europa. Tradutores bem remunerados também são raros. Como disse, o trabalho de tradutor era o meu segundo emprego, e em geral é assim para os grandes e para os desconhecidos tradutores, que levam adiante o seu trabalho por amor à literatura e à ciência, por amor à difusão do conhecimento. A diferença é que tradutores de profissão são poucos e, em geral, quando alcançam essa condição sabem que estão entrando em um círculo privilegiado; professores de profissão precisam ser muitos e sabem que estão condenados a uma vida de sacrifícios em troca da nobre missão. Os professores têm ...

MEMÓRIAS - ENTRE O PÃO E A PALAVRA

A minha primeira experiência marcante na docência aconteceu dentro de uma grande fábrica. Eram os anos em que as empresas investiam em cursos preparatórios para exames supletivos. Não faziam isso por súbito compromentimento social, nem por filantropismo (quero dizer filantropismo mesmo, não filantropia) ou por visão estratégica da formação para os resultados industriais: investiam só porque eram obrigadas a obter a certificação internacional de qualidade do processo de produção, a famigerada ISO 9000, que previa a execução do trabalho por pessoas com uma formação comprovada no papel. É relevante notar que o ponto básico era esse: não importava fazer digerir o conhecimento ou fornecer uma formação capaz de ampliar os horizontes e criar possibilidades de crescimento profissional para os funcionários. O importante era que o maior número possível de funcionários obtivesse a aprovação no exame supletivo. Bem entendido que quem não passasse no exame arriscava o emprego. A empresa fazia o ...

HÁ TRUQUES E TRUQUES

Antonio Candido que me perdoe, mas malandragem não é fundamental. Admiro o grande mestre, que soube descrever a malandragem como um dos traços distintivos da cultura brasileira, mas, sabe como é, em país de malandro, toma-se por receita o que é diagnóstico! Na realidade, Candido nunca fez apologia da malandragem: apenas reconheceu e explicou a peculiaridade da literatura de Manuel Antônio de Almeida e de Mário de Andrade. São os maus leitores que acharam que a malandragem é uma gracinha e um direito universal dentro da nação brasileira. Estou disposta a pagar novamente o ônus de ser considerada moralista, o que posso fazer? Chego à conclusão de que sou mesmo assim. Mas não demonizo nada e ninguém: sei apreciar e rir das peripécias do Sargento de Milícias, sei ver a alegoria de um Macunaíma, mas isso não significa que anulei o meu discernimento. Macunaíma, é sempre bom lembrar, é o herói sem nenhum caráter: se a literatura tem uma função social, Mário de Andrade deixou ao le...

UMA E OUTRA

Uma coisa é educar Outra coisa é instruir Uma coisa é formar Outra coisa é doutrinar Uma coisa é guiar Outra coisa é restringir Uma coisa é cultivar Outra coisa é podar Uma coisa é aguardar Outra coisa é omitir-se Uma coisa é apostar Outra coisa é duvidar Uma coisa é calar Outra coisa é mentir Uma coisa é falar Outra coisa é proclamar Uma coisa é afastar-se Outra coisa é fugir Uma coisa é dar Outra coisa é apreçar Uma coisa é avaliar Outra coisa é dividir Uma coisa é explicar Outra coisa é ditar Uma coisa é questionar Outra coisa é confundir Uma coisa é estimular Outra coisa é apressar Uma coisa é aceitar Outra coisa é desistir Uma coisa é preparar Outra coisa é treinar Uma coisa é acreditar Outra coisa é influir Uma coisa é cativar Outra coisa é aprisionar Uma coisa ...

UMA VULGAR ELOQUÊNCIA

A interpretação é a maior tentação para a ciência. Ela está aí, e vamos fazendo ciência sem poder prescindir dos riscos a que nos expõe. Às vezes é difícil distinguir a causa e o efeito, o vetor e a característica do fenômeno. A grande polêmica, que aflora cotidianamente, sobre o Acordo Ortográfico, é só um exemplo da guerra intestina que se trava nas áreas que envolvem a língua. Questão de opinião? Questão de vaidade intelectual? Não, questão fundamental, porque a língua é veículo de comunicação ou de desentendimento entre os homens. Mas na área da língua portuguesa, tornou-se também terreno de luta pela defesa da tradição ou do avanço, luta por prestígio geográfico, luta comercial. O Acordo Ortográfico virou uma espécie de bode expiatório para toda sorte de desavença. Para início de conversa, preciso esclarecer aos leitores de que lado estou: após um breve período de ceticismo, aprovei o espírito do Acordo. Falar a partir dessa posição muda tudo e é claro que receberei muitas crít...

O CATIVAR AMOROSO DA MESTRA

Dizer que Maria Luiza Ritzel Remédios foi uma das mais importantes professoras de literatura portuguesa, de narratologia e de outras áreas dos estudos literários no Rio Grande do Sul é dizer somente parte da verdade. Maria Luiza sabia educar a sensibilidade literária, integrava a sua própria sensibilidade na sua atuação profissional e não temia que a sua proximidade para com os alunos fosse mal interpretada por quem associa competência a uma capacidade de distanciamento e de isolamento em um patamar inatingível aos principiantes. Conheci Maria Luiza por teimosia. Adorava a língua portuguesa e em meus primeiros voos como estudante de Letras dedicara-me aos verbos. Mas quando tive a oportunidade de concorrer a uma bolsa para estudar a língua, recusei com sinceridade: sim, adorava a língua, mas estudava Letras para entender a literatura. Insisti até conseguir entrar no curso de Pós-graduação em Letras da PUCRS, em Teoria da Literatura, naturalmente. Como um Caetano deslu...