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Mostrando postagens com o rótulo poesia

A SÍLABA, COITADA

Há elementos da gramática que parecem destinados ao papel da vilão. A sílaba é um deles: não há concurso que se preze que não coloque uma questãozinha sobre uma exceção na divisão silábica. Ah, porque para um belestrista, para os pedantes de plantão, a regra geral da divisão silábica não importa, o que vale é a humilhação de desmascarar os candidatos e fazê-los morrer na praia por causa das exceções. Não bastasse isso, a tecnologia absorveu completamente a necessidade do revisor na diagramação do texto. A silabação é automática e as "viúvas" (as linhas quebradas isoladas no início de uma página) podem ser eliminadas com um ou dois truques de qualquer editor de texto. A sílaba vive dias difíceis, de indiferença e de ódio. Estudar para quê? Como para quê? Para elevar o espírito, ora bolas! Para apropriar-se das palavras e do vocabulário da língua saboreando cada pedacinho, como se fosse um tablete de chocolate finíssimo. A sílaba faz música na poesia, impõe o ritmo. Os po...

CENTÃO

Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança; A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Não quero mudar você Nem mostrar novos caminhos. Quando criança Me assoprou no ouvido um motorista Que os bons não se curvam Desconhecem as variantes E o estilo numeroso Dos pássaros que sabemos, Estejam presos ou soltos; Têm ritmo - para que possas profundamente respirar. Não aprofundes o teu tédio, Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios. Sentas-te à beira da noite Para fazer este poema, Este poema não é teu, É da tinta e do papel. Deixa-me apreciar minha loucura, Importuna Razão, não me persigas. Um mundo novo espera só um aceno... À borda dos abismos silenciosos... Crê no bem, ama a vida, sonha e espera. Centão é uma composição feita com trechos de obras de outros autores. Os créditos do centão acima são de Antero de Quental, Antonio Cicero, Bocage, ...

POESIA PARA QUÊ?

Hoje a poesia está para a língua como a arte abstrata está para a pintura. Para catalogá-la, já não bastam os elementos formais como rima, métrica, musicalidade, figuras de linguagem. O prosaico urbano invadiu o espaço poético, como outrora invadira o cotidiano (suponho) o bucolismo, mas a fúria prosaica não respeita os cânones líricos do passado. A anti-lírica e a falta de lirismo são o reverso da medalha e querem o seu espaço de negação lírica legitimado. Os poetweets e os aforismos poéticos desafiam a síntese. Romances em versos (recentemente passei os olhos por um, escrito por um jovem escritor italiano) apostam suas fichas em provocações nostálgicas. A música popular há muito tempo virou objeto de considerações acadêmicas, ganhando também a sua pequena glória literária. Vão-se os tempos em que os mais tradicionalistas contestavam a presença de Paulinho da Viola no júri de um prêmio literário. E Chico Buarque já ganhou todos os prêmios do nosso panteão. E apesar de toda a conf...