Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo literatura

DOIS VEADOS

Esta semana causou polêmica a afirmação feita por um candidato à presidência de que um certo livro que aborda a sexualidade na infância estava sendo distribuído nas escolas. Houve chuva de desmentidos: um deputado desmentiu, a editora desmentiu, os jornais falaram da mentira. Se tivesse falado de um livro importante, difícil, daqueles que quase ninguém lê, poderia ter passado por beletrista, pedante, retórico, mas não teria causado a avalanche de comentários que provocou. Teria chamado a atenção daquela minoria de leitores atentos, que não é a maioria dos seus eleitores. Com a mentira, mais que deslavada, atraiu a atenção de todos. É uma estratégia eficaz para ser lembrado, embora seja um mal-caratismo sem tamanho. O fato pode causar sensação por razões políticas, culturais, antropológicas, mas não deveria surpreender. A literatura não serve para nada, mas fornece um acervo de retratos da alma humana e estimula a nossa capacidade de análise. Quem lê criticamente não é pego de surpre...

LITERATURA COBAIA

A falta de responsabilidade jornalística e, digamos, também as piores intenções pseudojornalísticas são fatores determinantes para a disseminação de notícias falsas. Essa péssima prática usa um dos mais caros instrumentos da criação literária: a verossimilhança. Não pode haver falsa notícia se ela não tiver aparência de notícia confiável. Nem digo verdadeira, porque este seria outro campo espinhoso, mas pelo menos digna de credibilidade. Uma notícia confiável, por exemplo, pode ser sectária, apresentar um ponto de vista claro; não por isso será, necessariamente, falsa. O mais correto seria falar de informação parcial. A notícia falsa é produzida como a falsificação de um quadro ou, melhor seria a comparação, a publicação de um falso manuscrito literário. Jorge Luis Borges já tinha previsto tudo naquele conto genial que é Pierre Menard, autor do Quixote. A literatura pós-moderna também brincou bastante com isso. Lembro, por exemplo, do romance Em Liberdade, de Silviano San...

O QUE A LITERATURA ENSINA SOBRE A REDE

Todo autor constrói personagens e a própria autoria é um elemento constitutivo da ficção. O autor e a pessoa física a que ele se refere não coincidem. Quando falamos de autoria, de personagem autobiográfica e de outras dimensões ficcionais criadas literariamente, não estamos falando da pessoa que juridicamente é responsável pela autoria, mas estamos falando da "persona", da máscara literária que possui pontos de contato com a pessoa real, mas nunca de forma perfeitamente coincidente. O que podemos saber do autor é uma parte da sua personalidade; caso faça literatura autobiográfica, podemos saber um pouco do que transforma em personagem. Penso nos tantos autores que surpreendem pela timidez, sendo tão articulados nos textos escritos; ou naqueles que prezam a discrição, sendo exuberantes na linguagem. Pensem no Luis Fernando Verissimo ou no João Guimarães Rosa, por exemplo. O signo não é a coisa, dizem os linguistas. E quando escrevo "máscara" estou apenas indica...

DO PALAVRÃO À PÓS-VERDADE

Parece língua do "pê", mas se trata de estratégia comunicativa. O fato chamou a atenção dos jornais italianos: um partido, surgido da irritação dos eleitores em relação às políticas do governo, organizava comícios usando como chamada o mais conhecido e utilizado palavrão em língua italiana. Para simplificar e tornar digerível às camadas amplas da população, sem ferir a suscetibilidade de ninguém, os encontros passaram a ser denominados V-Day.  Com o tempo, o partido cresceu, elegeu-se e governa. Os militantes e também as lideranças do partido continuaram a utilizar insultos como forma de ataque aos partidos e aos políticos adversários. Era a técnica para surfar na onda da insatisfação da população, que deu alguns resultados. Agora que o partido está entre os maiores da Itália, os dirigentes decidiram que os palavrões não podem mais ser utilizados. E os pré-candidatos, que por muito tempo usaram a técnica, foram excluídos das listas para a escolha interna dos candidatos à...

CINCO MANEIRAS GARANTIDAS DE ARRUINAR UM TEXTO LITERÁRIO

Recentemente falei das utilidades da literatura. Hoje gostaria de compartilhar com os leitores cinco modos eficazes para destruir um texto literário (embora seja um fato geralmente indesejado, especialmente se o agente da destruição for um professor). LEIA O TEXTO EM VOZ ALTA A poesia tem uma regra: ela precisa ser recitada. Não é possível fruir plenamente a sua poeticidade sem a dimensão material gerada pela vibração das ondas sonoras no espaço. Eu gosto de chamar a atenção para isso, porque a literatura, quando recitada, interage com materiais plásticos (ou seja, deformáveis), especialmente o ar, mas não só. Interage com os tímpanos. Assim como a pintura modifica-se de acordo com a frequência de luz que incide sobre o quadro e com a nossa capacidade de visão. Dá para perceber que ler mal um texto é um crime! Em vez de harmonias, a leitura em voz alta pode gerar dissonâncias e criar um efeito indesejado. Portanto, todo cuidado é pouco, pois os nossos sentidos estão ligados às emoç...

DEZ UTILIDADES DA LITERATURA

A gente lê muito pouco, não é? Quem não tem um caso em família, na escola, entre os amigos. Então, pensando nisso, achei que seria bom compartilhar com vocês dez utilidades da literatura, as mais evidentes, para usar em caso de necessidade. 1) Serve para passar o tempo. Você está lá numa festinha chata, em que as pessoas só falam de TV e de internet e não sabe o que fazer? Fale do último livro que você leu. As pessoas vão ficar surpreendidas e provavelmente você passará a ser visto como um ser muito inteligente. Efeito colateral: você pode ficar sem ter com quem falar, mas aí já sabe o que está perdendo. Sempre dá para falar de TV e internet, mas enjoa. 2) Serve para treinar o seu conhecimento da língua . Você está lá, lendo um romance cheio de gírias e descobre, por exemplo, que há gírias que já entraram no uso corrente da língua. Se você gosta de gírias, pode sempre usar um livro como seu advogado. Obviamente, há livros sem nenhuma gíria, com palavras estranhíssimas, em desuso. Ó...

CENTÃO

Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança; A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Não quero mudar você Nem mostrar novos caminhos. Quando criança Me assoprou no ouvido um motorista Que os bons não se curvam Desconhecem as variantes E o estilo numeroso Dos pássaros que sabemos, Estejam presos ou soltos; Têm ritmo - para que possas profundamente respirar. Não aprofundes o teu tédio, Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios. Sentas-te à beira da noite Para fazer este poema, Este poema não é teu, É da tinta e do papel. Deixa-me apreciar minha loucura, Importuna Razão, não me persigas. Um mundo novo espera só um aceno... À borda dos abismos silenciosos... Crê no bem, ama a vida, sonha e espera. Centão é uma composição feita com trechos de obras de outros autores. Os créditos do centão acima são de Antero de Quental, Antonio Cicero, Bocage, ...

QUEM NÃO ODEIA A LITERATURA NÃO AMA ENSINAR

Fiquei surpresa por não ter recebido nenhum comentário provocatório quando escrevi no início do mês que a literatura é um amor superior (http://palavrasdebulhadas.blogspot.it/2014/02/a-angustia-da-filiacao.html). Todo mundo quietinho, ninguém para levantar polêmica e dizer: afinal, não era você que destratava o beletrismo? Que história é essa agora de "amor superior"? Pois é. A literatura é um amor superior, é aquele mistério que nunca se revela completamente, que alimenta a curiosidade pela vida afora. Mas a língua, como sempre repito, foi o meu primeiro amor, amor pleno, amor cheio de cumplicidade, amor (quase) sem segredos, amor familiar, amor que de tão visto nos cega, está ali o tempo todo como abajur em precioso silêncio, acompanhando as noites sem sono. Tudo isso é verdade para mim. E justamente nisso está o grande perigo. Vou explicar, porque já aconteceu um monte de vezes comigo. Você está louca para falar de um livro maravilhoso com um amigo e ele diz: "ah, Gi...

A ANGÚSTIA DA FILIAÇÃO

Primeiro texto do mês e eu aqui às voltas com a literatura: Quando ingressei no curso de Letras, depois de alguns meses, recebi duas oportunidades: participar do projeto de descrição da língua portuguesa ou ser monitor do curso de teoria literária. Expliquei, muito agradecida, à professora de língua portuguesa que adorava a língua, mas o meu problema era entender a literatura. Na época, havia essa dicotomia, entre os que idolatravam a linguística e colocavam a literatura num patamar inferior, dedicado às belles-lettres, e os que acreditavam no sistema literário. Não faltavam professores de literatura que com arrogância machista diziam que as moças de boa família inscreviam-se no curso para complementar os cursos de bordado e piano. E as professoras que nos diziam que os alunos de literatura trabalhavam só para pagar "os seus alfinetes". Tudo isso era Letras, mas não era o meu caso, que tinha feito a matrícula para entender como funciona essa tal literatura. Para espanto do...

ABECEDÁRIO PROVISÓRIO SOBRE A LÍNGUA SEGUNDO OS SEUS MESTRES

Se a língua é feminina, esses senhores não se furtaram ao seu encanto. Amor - "Não há língua que d'amor não cante" (José Albano) Beleza - "Grande Língua! Essa do Pedro. Essa do Zé. Pois é. E mais não digo e beleza!" (Pedro Américo de Farias) Carecimentos - "A língua deste gentio toda pela Costa é, uma carece de três letras – scilicet, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente." (Pero de Magalhães Gândavo) Dialeto - "O dialeto que se usa à margem esquerda da frase, eis a fala que me lusa, eu, meio, eu dentro, eu, quase."  (Paulo Leminski) Enigma - "Como podia ser que entendessem o enigma da terra, se não tinham as notícias nem a língua dela?" (Padre Antônio Vieira) Ferro - "Reparou nas flores de ferro dos quatro jarros das esquinas? Pois aquilo é ferro forjado. Flores criadas numa outra língua." (João ...

SE NÃO TEM MACHADO, CACE COM CARPINEJAR

Ando às voltas com a memória. Essa longa quaresma trouxe-me à mente minha avó, as suas expressões arcaicas e belas, que já no meu tempo de menina pareciam palavras erradas. Quando era menina, evitava repeti-las, nem a minha professora usava aquelas palavras! Mas quando descobri a nossa língua velha e mofada, aquela preciosidade que a gente despreza com a inconsciência de quem joga fora uma camisa desgastada, descobri as palavras de minha avó. Eram tantas.  No meio tempo tornei-me professora. E às vezes, para não perder o hábito e conservar a memória, perguntava para a nossa experiente secretária da escola se ela usava esta ou aquela palavra. Cara Nely, que ainda está lá, enquanto eu me encontro agora em outro arraial... A nossa secretária era mineira, minha avó era gaúcha, mas muitas vezes descobri com ela que em termos de tempo a língua é generosa e não faz muitas distinções regionais.  Talvez dessa experiência familiar e da minha natural inclinação para a língua venha...

A TERAPIA LITERÁRIA E OS DOGMAS DA CIÊNCIA MODERNA

A neuropsiquiatria infantil descobriu que pode criar fábulas sob medida para enfrentar o medo das crianças. Fantástico! Acho que Aristóteles tinha explicado algo a esse respeito quando descreveu o fenômeno da catarse. Mas hoje precisamos da psiquiatria infantil para dar prova científica do que já sabíamos filosofica, literaria e culturalmente há milênios. Nada contra a ciência, claro. O problema está em quem reconhece somente o critério científico como o único aceitável para explicar a experiência humana. Sinto fome de um discurso vigoroso nas ciências humanas, um discurso capaz de explicar com ferramentas próprias da subjetividade a experiência subjetiva da contemporaneidade. Estamos penhorando a subjetividade pela ilusória certeza de cientificidade. E corremos o risco de criar uma ciência instrumental, que explica o inexplicável e justifica o injustificável; uma ciência descritiva, "imparcial" - se é imparcialidade não assumir uma posição no mundo -, e por fim indifer...

SE É LITERATURA, TEM QUE INCOMODAR

Os melhores livros da minha vida não foram fáceis de engolir. Eu sempre digo para meus alunos que devo ter começado pelo menos umas dez vezes a leitura de Grande Sertão: Veredas antes de conseguir entender o que estava acontecendo naquela história. Quando o texto me pegou, não me largou mais. É uma sensação que experimentei várias vezes: lendo tragédias, lendo romances, lendo contos, lendo poemas e até lendo as melhores comédias. Lendo textos velhos e novos. Essa coisa que me agarra a um livro é a terrível sensação de que se eu fechasse as suas páginas, aquilo poderia acontecer comigo, como se fosse uma maldição. Então, com os olhos esbugalhados vou adiante para descobrir até onde vai a personagem, que fim irá levar, no meu lugar. Ponto final: e aquela sensação de ter ficado a salvo mais uma vez. Refiro-me à catarse. Só a catarse nos une, os livros a mim. A catarse, como estou descrevendo aqui, é um conceito bastante eclético, diria um Aristóteles. Contudo, creio que ele ...

O CATIVAR AMOROSO DA MESTRA

Dizer que Maria Luiza Ritzel Remédios foi uma das mais importantes professoras de literatura portuguesa, de narratologia e de outras áreas dos estudos literários no Rio Grande do Sul é dizer somente parte da verdade. Maria Luiza sabia educar a sensibilidade literária, integrava a sua própria sensibilidade na sua atuação profissional e não temia que a sua proximidade para com os alunos fosse mal interpretada por quem associa competência a uma capacidade de distanciamento e de isolamento em um patamar inatingível aos principiantes. Conheci Maria Luiza por teimosia. Adorava a língua portuguesa e em meus primeiros voos como estudante de Letras dedicara-me aos verbos. Mas quando tive a oportunidade de concorrer a uma bolsa para estudar a língua, recusei com sinceridade: sim, adorava a língua, mas estudava Letras para entender a literatura. Insisti até conseguir entrar no curso de Pós-graduação em Letras da PUCRS, em Teoria da Literatura, naturalmente. Como um Caetano deslu...