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Mostrando postagens com o rótulo metáfora

E SE A MBOITATÁ FOSSE UMA METÁFORA ATUAL?

Esta semana lembrei da Mboitatá, lenda do sul recolhida e reescrita literariamente por Simões Lopes Neto, em 1913. A distância de um século parece irônica, mas o tempo não faz ironia, apenas passa inexoravelmente, oferecendo-nos novas possibilidades de interpretação. Nada nessa lenda abunda, tudo funciona para a construção da narrativa e para a alegoria do retorno do mundo à luz e do seu renascimento depois da morte da Mboitatá. O relato inicia nos tempos imemoráveis, que caracterizam os textos lendários: "FOI ASSIM: num tempo muito antigo, muito, houve uma noite tão comprida que pareceu que nunca mais haveria luz do dia." O narrador, contudo, introduz a multiplicidade de versões da história da Mboitatá, empregando um recurso estilístico que encontraremos vinte anos mais tarde, em pleno modernismo, nos Contos de Belazarte , de Mario de Andrade. De fato, os capítulos II e III começam pela intercalação "Minto", típica da oralidade, para reformular a versão inic...

COMO DIZER "PROBLEMA" E COMO EXORCIZÁ-LO

Quando fico submersa por mensagens que exaltam o lado positivo da vida, a bondade que está dentro de nós, a felicidade a todo custo, penso: como pode uma sociedade "do bem" ser tão e tão continuamente violada pelo mal? Será que falta determinação em fazer o bem ou falta determinação em cortar o mal pela raiz? Aposto que na nossa cultura o problema está na nossa pouca força para enfrentar o mal. A gente nega, diz que não foi por querer, encontra desculpas indesculpáveis e tem ojeriza à responsabilidade. A culpa é sempre do outro e "eu não sei, não vi, nem quero saber": não é problema meu. Nisso, o uso da língua é exemplar. Nós temos dois padrões para escapar daquilo que nos incomoda: usando a metáfora ou recorrendo à catacrese, quer dizer, a um termo que no contexto serve como sinônimo, mas sinônimo não é. Quando temos um problema, mas não queremos dizer de forma explícita, recorremos a metáforas como: abacaxi, pepino, batata quente, zebra (usadas para cois...

OFÉLIA, PLATÃO E O CABRA-MACHO

Eu era criança e sofria a péssima influência das personagens populares da tevê. Uma delas era Ofélia, uma personagem cômica que terminava os seus esquetes dizendo: “eu só abro a boca quando tenho certeza!”. Obviamente a personagem preenchia o seu tempo no vídeo dizendo uma série de bobagens, ou de abobrinhas, como dizemos metaforicamente. A Ofélia era o anti-Platão por excelência: uma figura deletéria para quem está descobrindo o alcance da linguagem. A Ofélia era péssimo modelo para as meninas e para as mulheres. A Ofélia certamente divertia os ditadores. A ignorância faz rir, a dúvida faz preocupar, na visão de alguns. Mas a ignorância certamente não é algo ridículo, e as dúvidas deveriam ser estimulantes. Quem não tem dúvida é pouco humano. Quem duvida está sempre à procura de si mesmo e dos outros. Às vezes quero publicar uma série de coisas aqui no blog, coisas que vão ficando acumuladas no meu caderninho e que ainda não estão suficientemente sistematizadas para o meu nível ...

SEIS NÃO É MEIA DÚZIA

Sinônimo não existe. Quando as pessoas me perguntam o que estou querendo dizer com isso, costumo responder que estou dizendo o que estou dizendo; se quisesse dizer outra coisa diria outra coisa. Na verdade, quando as pessoas perguntam o que você está querendo dizer, não estão esperando que você se explique  com outras palavras, afinal de contas, todo mundo sabe que “sinônimo não existe”. As pessoas estão esperando que você explique a metáfora, o uso deslocado que fez com suas palavras; esperam que você explique o que não foi dito, foi dito com meias palavras ou foi dito metaforicamente, usando um “deslizamento semântico”, como se diz em termos linguísticos. Seis não é meia dúzia porque sinônimo não existe, mas seis pode ser meia dúzia porque a língua é polissêmica. Uma questão de polissemia. Como digo frequentemente a meus alunos, é preciso prestar atenção às definições usadas para explicar a língua, que nesse caso é “deslizamento”. De fato, o fenômeno do “deslizamento” é muito pr...