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O DIA DA LÍNGUA MATERNA

Como falar de língua materna em um país multicultural? Claro, a minha língua materna é o português. Mas a minha língua materna tem um colorido exótico, aquela brancura tão estranha nos trópicos. A minha língua materna tem o sabor daquelas tradições que já perderam a sintaxe e espalharam pelo idioma palavras soltas, como um colar de miçangas que arrebenta e esparrama as contas na areia: chimia, chucrute, quechimia, compota, cuca, clês... A minha língua materna é bronzeada, é um léxico contagiado pelo sol, adaptado às nossas latitudes. É um aportuguesamento, que denota a sua novidade; é a morte do velho, o desconhecido no seu lugar de origem. É ganho e é perda. O que mais impressiona na minha língua materna, porém, é a presença de um silêncio enorme, que diz muito sobre o que não gostamos de comentar. Uma das minhas bisavós morreu aos 101 anos. Cheguei a conhecê-la, tinha dez anos quando ela faleceu. Mas nunca a vi falar. Nunca. Quando íamos visitá-la, na casa de uma tia-avó, ela geralm...

O SILÊNCIO, UM DIREITO DESPREZADO

E pensar que o silêncio já foi preceito: hoje nós temos grande dificuldade de calar e, especialmente, de dar significado ao silêncio. Ao contrário, a calúnia e a mentira vendem jornais e espaços publicitários; o direito de resposta aumenta ainda mais as vendas. A manipulação da linguagem está na ordem do dia e quem quer ganhar dinheiro e poder sabe as regras desse marketing. Contra esses abusos não adianta usar decretos e leis. É preciso estar preparado para separar o joio do trigo. A tarefa não é fácil, justamente em uma sociedade de informação que sofre com a inflação de informações e, do ponto de vista negativo, aposta nessa inflação para criar mistificação. Por outro lado, é cada vez mais evidente o papel dos formadores de opinião, cuja posição não se sustenta nos argumentos, mas especialmente na reputação do autor. Uma bobagem dita por quem tem credibilidade no mercado vale muito mais que o bom argumento do autor de série B. Isso vale para a comunicação de massa, mas também p...

SILÊNCIO

Um dos temas mais fascinantes na comunicação é o silêncio. Nessa área temos grandes mestres, mas tenho a sensação de que o assunto passa meio de longe pelos programas escolares e a realidade dá margem a certos estereótipos que distorcem o seu alcance e os seus efeitos. O grande teórico do silêncio foi para mim Wolfgang Iser. O não-dito, as lacunas, os espaços encontrados em um texto eram para ele a esfera em que o leitor deveria ter um papel ativo para dar sentido a uma obra literária. É claro que numa comunicação entre dois interlocutores o papel dos atores é muito diferente, pois não se tem tempo para avaliar as pausas, as hesitações, as reformulações sem que isso implique necessariamente uma perda de foco na conversa. Contudo, concentrar-se excessivamente no que é dito é o erro perfeito de quem tem por lema “me engana que eu gosto”: especialmente se o interlocutor for hábil em retórica. Há outros mestres nessa arte que muito me ensinaram: Machado de Assis, Clarice Lispector, Gabriel...