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Mostrando postagens com o rótulo neologismo

TEMPURA E O KEBABBARO

Numa das salas em que lecionei português por vários anos, havia um pôster com várias frutas. Eu perguntava aos alunos: quem adivinha quais são as frutas brasileiras nessa imagem? Erravam quase tudo: a manga vem da Ásia, a jaca idem, a carambola também. Muitas frutas tropicais conhecidas não são nossas, mas nós levamos a fama. Raramente encontramos no exterior fotos de pitangas, essas, sim, típicas do nosso país. Uma vez comprei uma latinha de castanhas de caju, estava escrito: made in Germany. Sim, as típicas castanhas de caju da Alemanha! Quase tive um chilique. A palavra caju vem do tupi, o cajueiro foi levado para a África e para a Ásia pelos portugueses. E o tempura, esse prato típico japonês? É outro caso de importação. Alguns exageram, dizem que as frituras chegaram à China graças a Marco Polo, mas ninguém explica porque o nome tempura pegou em japonês. Portanto, fico com a tese mais recente, segundo a qual o termo vem da expressão "tempore quadragesimae", pois era um...

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDA-SE A LINGUAGEM

A língua, como no soneto atribuído a Camões, muda de acordo com o tempo e com a vontade de mudança das nossas sociedades. Para dar uma ideia de como a língua é dinâmica, basta pensar que em um ano mais de 800 palavras foram incluídas no nosso idioma. Também li que em italiano, nos últimos dez anos, cerca de 7500 novas palavras foram introduzidas no dicionário mais popular do país, o Zingarelli. Mas como a língua muda? A língua, como a sociedade, transforma-se de modo desigual, pois não podemos afirmar que tudo em uma sociedade possui a mesma prioridade: seria uma contradição. Há setores que recebem maior impulso, outros que recebem mais atenção, outros que são mais necessários. Partindo dos dados referentes à língua italiana, podemos ter uma ideia de como a ampliação do  vocabulário ocorre também em português, já que muitas palavras possuem um uso global. Os setores que mais produzem neologismos são a informática e a medicina. Até aqui, nenhuma surpresa, em duas áreas de ponta, c...

Químicos aprovam nomes dos novos elementos da tabela periódica

Assinalamos uma notícia que anuncia os nomes dos novos elementos químicos da tabela periódica e indica as regras seguidas pela União Internacional de Química Pura e Aplicada para estabelecer as novas denominações. As novas palavras aceitas pela instituição são classificadas como "epônimos". O epônimo é um nome próprio usado para designar outro nome. Em português, usamos genericamente este termo, mas eu prefiro chamar os neologismos formados a partir dos nomes próprios de "deônimos", para marcar que se trata de palavras derivadas. Apenas outra observação, não bem esclarecida no artigo: "Nihon" não é uma simples palavra de origem japonesa (de fato, apenas isso não a caracterizaria como deônimo), mas "Nihon" é o modo mais comum de pronunciar "Japão" em língua japonesa. Isso abre uma outra questão interessante: o fato de muitos países possuírem um nome em língua local e outro ligado ao contexto histórico. Isso ocorre, por exemplo, com...

NEOLOGISMOS EM TEMPO DE CRISE

Se alguém retornasse hoje ao Brasil, após uma ausência de 10 anos, ficaria perplexo e desorientado com os termos que empregamos no cotidiano: coxinha, petralha, isentão... o que é isso? É a vitalidade da língua, sinalizando um momento crítico, significativo na nossa história e na nossa sociedade. O termo "coxinha" designa um salgadinho típico da nossa culinária, mas hoje se torna metáfora. Talvez possamos dizer que é um cidadão típico, médio, ou médio-alto, e que atualmente se coloca entre os que levantam críticas explícitas ao governo. A palavra "petralha", salvo engano meu, é um trocadilho com "metralha", personagens da Disney, aqueles ladrões fofos que viviam tentando roubar o Tio Patinhas. Aqui a alusão é referida aos casos de corrupção que estão sendo investigados na Operação Lava Jato. Os "petralhas" são os defensores do governo sob investigação. "Isentão" é o último neologismo do momento. Diante da polarização entre "coxi...

DIALOGUISMO E OUTROS BERGOGLIANISMOS QUE ENRIQUECEM AS LÍNGUAS

O último neologismo do Papa Francisco tem data de nascimento: 20 de Maio de 2015. Falando sobre a relação entre pais e filhos, o Papa disse que um dialoguismo superficial não comporta um verdadeiro encontro da mente e do coração. Mas na síntese em português, o "dialoguismo" foi traduzido de forma parafrástica, explicativa: "é preciso não se contentar com um diálogo superficial". "Dialoguismo superficial" não é "diálogo superficial", mas parece evidente que os tradutores, ao contrário do Papa, não se sentem à vontade para ousar na linguagem. Com "dialoguismo" é provável que Francisco tenha procurado evidenciar o diálogo sistematicamente ineficaz, que se torna um falar vazio, que não cumpre a sua função. Importante: não confunda o neologismo bergogliano "dialoguismo" com o termo usado por Bakhtin, estudioso russo que cunhou o termo "dialogismo", retomado nas teorias pós-estruturalistas a partir da crítica francesa. ...

NOSSA, QUE LÍNGUA ANIMAL!

Eu comecei a escrever este artigo em abril. Parei porque o tema era complicado, e não me arrependi por ter perdido tempo, porque em meados de maio li um artigo que me fez sorrir e tremer: Chomsky e outros grandes estudiosos refutam as teorias sobre a origem da linguagem  que pretendem explicar a evolução da linguagem, criticando as abordagens computacionais, assim como as neodarwinistas; as teorias da linguagem artificial, assim como a genética comparativa: não se sabe como surgiu a linguagem. A arte de sorrir Meu filho adora o mundo animal e tem os animais em grande consideração. Um dia perguntei para ele: quais são, na sua opinião, as diferenças entre os animais e nós, humanos? Do alto dos seus oito anos ele respondeu: hum... os animais geralmente caminham usando quatro patas, nós, não; os animais têm rabo, nós, não. E o que mais? - eu quis saber. Mais nada, ele me disse. Como nada? - contestei - Nós falamos, os animais, não... Então ele me contestou: Os animais falam, si...

ANO NOVO, PALAVRA NOVA

Nem tudo que é novo é bom. O termo "exodado" é exemplo disso. "Exodado": você nunca ouviu falar dessa palavra? Provavelmente não. Participo de um portal de tradução como voluntária e recentemente o administrador do glossário solicitou a tradução em várias línguas do neologismo italiano "esodato". O termo foi escolhido como palavra do ano na Itália e esse fator deve ter contribuído para que a sua tradução se tornasse necessária. O que é um "esodato"? Para traduzir o termo é preciso em primeiro lugar entender a essência. Por que os italianos sentiram a necessidade de inventar um termo novo? "Esodato" é uma pessoa que fez um êxodo do mercado de trabalho, quer dizer, saiu do mercado do trabalho. É uma analogia ao êxodo dos judeus que, guiados por Moisés, deixaram o Egito, onde eram escravos, atravessaram o deserto e chegaram até o Monte Sinai para a nova aliança. É um texto muito rico, portanto os leitores perdoem por favor a extrema e ...