Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo verbos

ODE MAIS QUE PERFEITA: PRETÉRITOS

Já não se encontram pessoas que usem o pretérito mais-que-perfeito. Que usem simplesmente, como eu gostaria que usassem: claro, perdemos o verbo, mas não o vício de ter caprichos. Não digo que não haja pedantes que utilizem o pretérito mais-que-perfeito simples, mas estes hoje foram suplantados pelos que se orgulham do baixo calão, da vulgaridade e da ignorância. Venceu a maioria. Aos pedantes hoje é reservado o silêncio de cristal e a indiferença de cristaleira, como o brilho de um tempo que amarelou. Na realidade, não é pela falta que me fazem os pedantes que lamento a ausência do nosso pretérito mais-que-perfeito. É que o desejo, a expectativa, a esperança eram mais que perfeitos, além de serem necessários. Pudera eu acabar com essa tristeza. Quem me dera espalhar sorrisos. Prouvera Deus! A gente pode até viver sem o pretérito mais-que-perfeito com esse uso particular: os italianos, que desconhecem essa opção sentimental, mais do que gramatical, sobrevivem trocando essa linda forma...

REBOBINAR - EM VIA DE EXTINÇÃO

Fora da esfera técnica, ninguém mais usa o verbo rebobinar. Antigamente era costume: rebobinava-se o filme da máquina fotográfica para não perder as imagens na hora de mandar fazer a revelação. Rebobinava-se a fita de vídeo para não pagar multa na locadora. Rebobinava-se a fita cassete (com caneta Bic) para não perder tempo, enquanto se escutava a próxima fita no aparelho de som. Ninguém mais rebobina. A gente clica, deleta, carrega, baixa, aperta o botão, escolhe o tipo de reprodução. Rebobinar dava aos sentidos da visão e da audição uma dimensão tátil mais intensa que a de hoje. Ou pelo menos mais circular.

IR: MODOS DE USAR

Fazia tempo que eu não falava dos verbos. É que eles são tão arraigados ao uso que fazemos da língua, que explicitar é quase uma violação da intimidade que temos com as palavras, com o nosso modo de conviver com o idioma. Obviamente, não pretendo com isso dar a entender que não é preciso estudar os verbos. É preciso estudá-los e é um direito tomar posse deles, torná-los nossos, usá-los com toda a propriedade de que dispõem. Usar bem os verbos é como apropriar-se plenamente de uma herança. Não falo tanto dos verbos porque a escola faz isso todos os dias, como um jardineiro paciente, como um precetor cuidadoso. Eu falo dos verbos como um pintor de aquerela sentado na praça: com paixão pelo tempo que corre, pela água que escorre, pelas cores que desbotam indiferentes à beleza do absoluto. Eu falo dos verbos que fazem caretas para os falantes, reinventam-se, vivem porque renascem todos os dias nas nossas línguas. O verbo IR, por exemplo, hoje bateu à porta da minha memória sem ser cha...

SINTAXE, PARA QUE TE QUERO

Nessa luta da ortografia nova contra a ortografia velha, um aspecto permanece estável e sempre confiável para dar ao discurso o tom que desejamos: a sintaxe. A estrutura sintática do português é muito rica, por isso, ficar somente nas fórmulas conhecidas dá a impressão de preguiça ou pouco conhecimento. Em primeiro lugar, é preciso considerar a estrutura adequada para o objetivo que queremos atingir: não basta escolher o léxico, a estrutura da frase deve acompanhar, quer dizer, conta a forma e o conteúdo. Por exemplo, para informar, podemos escolher a forma passiva ou ativa. Escolhemos a passiva quando não importa o agente ou quando não convém dar peso ao agente; pelo contrário, a forma ativa evidencia quem pratica a ação. Notícias frescas: "O corpo de Autran Dourado foi velado no Rio de Janeiro"; "A Academia Brasileira de Letras concedeu a Autran Dourado, em 2008, o prêmio Machado de Assis" - dá para perceber a diferença? Também é possível optar por uma forma ...