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Mostrando postagens com o rótulo leitura

O QUE A LITERATURA ENSINA SOBRE A REDE

Todo autor constrói personagens e a própria autoria é um elemento constitutivo da ficção. O autor e a pessoa física a que ele se refere não coincidem. Quando falamos de autoria, de personagem autobiográfica e de outras dimensões ficcionais criadas literariamente, não estamos falando da pessoa que juridicamente é responsável pela autoria, mas estamos falando da "persona", da máscara literária que possui pontos de contato com a pessoa real, mas nunca de forma perfeitamente coincidente. O que podemos saber do autor é uma parte da sua personalidade; caso faça literatura autobiográfica, podemos saber um pouco do que transforma em personagem. Penso nos tantos autores que surpreendem pela timidez, sendo tão articulados nos textos escritos; ou naqueles que prezam a discrição, sendo exuberantes na linguagem. Pensem no Luis Fernando Verissimo ou no João Guimarães Rosa, por exemplo. O signo não é a coisa, dizem os linguistas. E quando escrevo "máscara" estou apenas indica...

CINCO MANEIRAS GARANTIDAS DE ARRUINAR UM TEXTO LITERÁRIO

Recentemente falei das utilidades da literatura. Hoje gostaria de compartilhar com os leitores cinco modos eficazes para destruir um texto literário (embora seja um fato geralmente indesejado, especialmente se o agente da destruição for um professor). LEIA O TEXTO EM VOZ ALTA A poesia tem uma regra: ela precisa ser recitada. Não é possível fruir plenamente a sua poeticidade sem a dimensão material gerada pela vibração das ondas sonoras no espaço. Eu gosto de chamar a atenção para isso, porque a literatura, quando recitada, interage com materiais plásticos (ou seja, deformáveis), especialmente o ar, mas não só. Interage com os tímpanos. Assim como a pintura modifica-se de acordo com a frequência de luz que incide sobre o quadro e com a nossa capacidade de visão. Dá para perceber que ler mal um texto é um crime! Em vez de harmonias, a leitura em voz alta pode gerar dissonâncias e criar um efeito indesejado. Portanto, todo cuidado é pouco, pois os nossos sentidos estão ligados às emoç...

JORNALISMO NA TORCIDA

Ontem, lendo várias notícias sobre o mesmo assunto e vários textos jornalísticos apresentando a mesma linha política, experimentei a sensação de estar ouvindo o coro de uma torcida organizada. É o melhor! Caiu! Despencou! Eram os artigos comentando a lista anual de liberdade econômica da Fundação Heritage. Só encontrei uma voz dissonante, vou falar sobre ela adiante. Gente, que coisa feia. Pelo tom dos textos publicados, parece que a maioria dos autores limitou-se a fazer duas operações: copiar e colar o comunicado da instituição. Quem não é da área talvez não saiba que as instituições e empresas escrevem um artigo (que no meio os profissionais chamam de "release") para anunciar uma descoberta, uma iniciativa, um evento, um produto, etc. O comunicado é enviado para redações e agências de notícias, que escrevem o artigo a partir dos dados fornecidos, caso se trate de um tema relevante para o público. Os leitores podem não saber como as coisas funcionam nos bastidores...

A TERAPIA LITERÁRIA E OS DOGMAS DA CIÊNCIA MODERNA

A neuropsiquiatria infantil descobriu que pode criar fábulas sob medida para enfrentar o medo das crianças. Fantástico! Acho que Aristóteles tinha explicado algo a esse respeito quando descreveu o fenômeno da catarse. Mas hoje precisamos da psiquiatria infantil para dar prova científica do que já sabíamos filosofica, literaria e culturalmente há milênios. Nada contra a ciência, claro. O problema está em quem reconhece somente o critério científico como o único aceitável para explicar a experiência humana. Sinto fome de um discurso vigoroso nas ciências humanas, um discurso capaz de explicar com ferramentas próprias da subjetividade a experiência subjetiva da contemporaneidade. Estamos penhorando a subjetividade pela ilusória certeza de cientificidade. E corremos o risco de criar uma ciência instrumental, que explica o inexplicável e justifica o injustificável; uma ciência descritiva, "imparcial" - se é imparcialidade não assumir uma posição no mundo -, e por fim indifer...

A MAGIA DE XERAZADE

Por que "As mil e uma noites" continua encantando? Há muitas respostas para explicar o fenômeno e há dezenas de autores que se debruçaram sobre o tema. Continua encantando porque é um clássico, porque é universal. Então é preciso entender o que é um clássico, o que significa ser um texto universal. Resumindo em palavras muito simples, digamos simplórias por sua extrema síntese: "As mil e uma noites" continua encantando porque possui aqueles elementos que magnetizam a atenção do leitor e que continuam a magnetizar geração após geração. O clássico está além das escolas, dos períodos históricos e... além da idade. Estou relendo com meu filho "As mil e uma noites", em versão traduzida, mas não adaptada para a infância. Estou comprovando na prática o que já teorizo há muito tempo (sobre a leitura): que não há texto certo para uma faixa etária, mas que há faixas etárias para o bom texto. Um bom texto pode ser apreciado em maior ou menor grau por diferentes cat...

LEITURAS

É um vazio que preenche. É um silêncio que ensurdece. Parece uma pausa, mas é tempo cheio. É bagagem. É necessário. Ler é fundamental. O que estou lendo enquanto leio? Leio o estilo, saboreio a escolha das palavras. Detenho-me na dimensão da frase. Por que parágrafos longos intercalados por parágrafos curtos? Percorro as linhas e às vezes tranco a respiração. Suspense. Às vezes fico com raiva. Às vezes rio. Às vezes volto para ter certeza de que estou entendendo bem. E às vezes retorno pelo prazer de ler novamente. Depois de muito ter lido, achei que a leitura tivesse sido a minha melhor gramática. E foi, no início. A gramática normativa percorreu com facilidade meus neurônios e a minha boa disposição para apreender as lições, porque já tinha lido, e muito. Já tinha a língua nas veias, faltava a consciência. Depois da gramática - e ainda hoje, com a gramática -, a leitura tornou-se a bússola que indica os caminhos da língua. Quando não estou escrevendo aqui no blog é porque estou...

A LÍNGUA E O ESPÍRITO OLÍMPICO

Lealdade, união, confraternização, encontro. Os jogos olímpicos exaltam a paz e o lado positivo da competitividade. E a língua? Como se sabe, a língua pode ser um poderoso instrumento de controle. Nem sempre é veículo de democratização. Mas as olimpíadas da língua portugesa existem para a ajudar a difundir a sua importância. O que pode ser feito? Incentivar a leitura de forma sistemática e interdisciplinar, porque não se lê apenas nas aulas de português e não se lê somente literatura. Além disso, incentivar a escrita nas suas várias modalidades: técnica, criativa, divulgativa, persuasiva, poética etc. É hora de ler nas aulas de ciências, de biologia, de física e de estudar melhor os registros linguísticos desses setores. É hora de nós, professores de língua, acolhermos o desafio de falarmos sobre os mais diversos assuntos, darmos os passos necessários para uma interdisciplinaridade de fato.  É preciso que este espírito prevaleça para que a língua seja cada vez mais um vetor rele...

SE É LITERATURA, TEM QUE INCOMODAR

Os melhores livros da minha vida não foram fáceis de engolir. Eu sempre digo para meus alunos que devo ter começado pelo menos umas dez vezes a leitura de Grande Sertão: Veredas antes de conseguir entender o que estava acontecendo naquela história. Quando o texto me pegou, não me largou mais. É uma sensação que experimentei várias vezes: lendo tragédias, lendo romances, lendo contos, lendo poemas e até lendo as melhores comédias. Lendo textos velhos e novos. Essa coisa que me agarra a um livro é a terrível sensação de que se eu fechasse as suas páginas, aquilo poderia acontecer comigo, como se fosse uma maldição. Então, com os olhos esbugalhados vou adiante para descobrir até onde vai a personagem, que fim irá levar, no meu lugar. Ponto final: e aquela sensação de ter ficado a salvo mais uma vez. Refiro-me à catarse. Só a catarse nos une, os livros a mim. A catarse, como estou descrevendo aqui, é um conceito bastante eclético, diria um Aristóteles. Contudo, creio que ele ...

O QUE É PRECISO PARA LER EM PORTUGUÊS?

Na universidade eu tinha um colega que lia dicionário. Não é brincadeira. Hoje é professor universitário, um profissional sério e competente. Mas é óbvio que esse resultado profissional não se deve à leitura do dicionário. Para não descredenciar meu colega, que respeito muito, é preciso explicar até o fim o seu método: ler dicionário era uma espécie de rito noturno, utilizado para desafiar a própria memória, para descobrir alguma palavra nova, para refletir sobre o léxico. Um velho mito consolidado entre professores de língua é que o conhecimento de um idioma é diretamente proporcional ao número de vocábulos utilizado pelos estudantes. Há inclusive pesquisas que mostram a relação entre o número de palavras utilizadas e a faixa salarial em que o profissional pode se colocar. Essa é uma grande falácia. Se assim fosse, os professores de português, os gramáticos e os linguistas receberiam uma remuneração milionária, e os físicos, com sua conhecida concisão, provavelmente seriam condena...

ANTÍDOTO PARA O ÓCIO

Temporada de férias, temporada de caça pirata ao leitor, que com distração entrega-se ao ócio como se fosse dever colocar o cérebro na reserva. É o pudor das férias, a vergonha de seguir o ritmo habitual da vida, como se fosse um vício trabalhar. Talvez seja, porque já me sinto em crise de abstinência. De todo modo, as férias têm as suas vantagens: permitem retomar velhos hábitos, como ler jornal impresso, sem se render ao primeiro parágrafo da notícia. Na correria cotidiana é raro ir além da síntese e os bons redatores sabem disso. Por essa razão colocam todos os elementos fundamentais referentes ao fato no parágrafo de abertura do artigo. São os conhecidos QUEM, COMO, O QUE, ONDE, QUANDO, POR QUE. A boa surpresa é que o tempo livre também dá oportunidades únicas aos redatores excelentes, que capturam o leitor em via de extinção, atraindo-o na selva de informação com as melhores iscas. Os textos mais apetitosos para leitores que querem cair na rede contêm dados e conceitos claros, enc...