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Mostrando postagens com o rótulo ironia

HABEMUS MINISTRUM

Os franceses possuem uma expressão popular para exprimir a continuidade no poder. Eles dizem: “le roi est mort, vive le roi!”, ou seja, o rei está morto, viva o rei. Esta era a fórmula utilizada pela monarquia, antes da Revolução Burguesa, para afirmar a solidez da instituição. Nada como a história para destruir as nossas mais sólidas convicções. De toda forma, o dito continua vivo. Em italiano, adaptando a noção de monarquia, costuma-se dizer: “morto un papa, se ne fa un altro”, quer dizer, quando um papa morre, elege-se outro. E para dar o anúncio, usa-se a frase solene, em latim: “habemus papam”. Nada como um dito popular para destruir o comparativismo reles que compromete uma análise. Citei os dois casos, em que temos nada mais que uma tradução feita por equivalência, considerando, portanto, o contexto cultural no qual as frases são empregadas, para mostrar que podemos traduzir, mas não podemos generalizar. Ou seja, a validade da sentença é estritamente local e a adaptaçã...

E-RONIA, O TRIUNFO DA RETÓRICA NA ERA DAS REDES SOCIAIS

"Só sei que nada sei". Um dos momentos mais gloriosos da ironia encontra-se nos primórdios da filosofia ocidental. Graças aos discursos platônicos, hoje existe uma categoria específica de ironia, a ironia socrática. Para "parir" as ideias, Sócrates, a personagem dos discursos platônicos, reunia para um bate-papo uma plateia, à qual confessava não conhecer determinado assunto, mas estar muito interessado em entendê-lo. A conversinha mansa ia adiante entre uma pergunta e uma resposta e aos poucos o conhecimento emergia. Era uma mentira descarada essa do Sócrates, porque ele sabia bem do que falava, mas se valia da ironia ("eu não sei, não...") para alimentar o debate e conduzir os participantes às suas ideias. Esse "emergir" gradual é o chamado método maiêutico, que significa "parir". Parir ideias. Escrever a tese foi um parto. Escrever um livro é como ter um filho. O nosso cotidiano ainda está impregnado dessas ideias lançadas n...

OFÉLIA, PLATÃO E O CABRA-MACHO

Eu era criança e sofria a péssima influência das personagens populares da tevê. Uma delas era Ofélia, uma personagem cômica que terminava os seus esquetes dizendo: “eu só abro a boca quando tenho certeza!”. Obviamente a personagem preenchia o seu tempo no vídeo dizendo uma série de bobagens, ou de abobrinhas, como dizemos metaforicamente. A Ofélia era o anti-Platão por excelência: uma figura deletéria para quem está descobrindo o alcance da linguagem. A Ofélia era péssimo modelo para as meninas e para as mulheres. A Ofélia certamente divertia os ditadores. A ignorância faz rir, a dúvida faz preocupar, na visão de alguns. Mas a ignorância certamente não é algo ridículo, e as dúvidas deveriam ser estimulantes. Quem não tem dúvida é pouco humano. Quem duvida está sempre à procura de si mesmo e dos outros. Às vezes quero publicar uma série de coisas aqui no blog, coisas que vão ficando acumuladas no meu caderninho e que ainda não estão suficientemente sistematizadas para o meu nível ...