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Mostrando postagens com o rótulo gramática

A QUEM PERTENCEM OS MORTOS?

Esta semana, duas notícias sem nenhuma ligação entre si chamaram a minha atenção. Uma delas informava que um documentário brasileiro tinha recebido um prêmio internacional: conta a história dos últimos sobreviventes de um povo destinado à extinção. A extinção certa: é um conceito brutal. Mas é com isso que temos de lidar: com um povo que morre e leva consigo a sua cultura e a sua língua. A derrota é coletiva, todos nós perdemos quando um povo desaparece. A humanidade se revela menos humana por permitir que povos sejam dizimados. A outra notícia referia-se a um político italiano, o qual afirmou que a política deve interessar-se pelos vivos, não pelos mortos. Discute-se na Itália a lei do testamento biológico, que prevê a possibilidade de as pessoas poderem exprimir-se sobre o fim da própria vida. A frase causou polêmica, e não apenas pelo conteúdo ético. Trata-se, claramente, de dois problemas diferentes: em um caso, é uma cultura que se perde juntamente com os seus últimos f...

PORTESTE: Teste os seus conhecimentos

Gostaria de informar que criei um pequeno aplicativo para testar conhecimentos da língua portuguesa. O link para baixar gratuitamente o aplicativo é este aqui: https://play.google.com/store/apps/details?id=com.wPORTESTE&hl=it Este é o ícone para identificar o aplicativo. Bom divertimento e deixem os comentários de vocês. Obrigada!

A CULPA É DA LÍNGUA

Leio frequentemente desabafos de quem vê horrores ortográficos e associa às dificuldades linguísticas os sintomas de intrínsecas dificuldades profissionais: "se não sabe nem escrever, imagina que tipo de profissional pode ser", coisas assim. Isso porque é por meio da língua que comunicamos as nossas competências: e se não comunicamos bem, parece que não sabemos bem. Não é por acaso que a língua tem um peso considerável em concursos, independentemente da área para a qual o candidato propõe-se. Realmente, a língua é fundamental. Mas não é uma simples alavanca profissional, não é um simples meio. A língua é o nosso canal de contato com o mundo exterior: através da língua afirmamos quem somos (inclusive com nossos erros e limitações) e onde estamos na sociedade. O nosso sotaque individual é único, chama-se idioleto: o timbre, a cadência, a entoação, o ritmo que caracterizam a nossa voz são inconfundíveis. O estilo que usamos na escrita nos caracteriza, torna-se uma marca pessoa...

POR QUE OS ESCRITORES DEVEM SER CONTRA A REFORMA ORTOGRÁFICA?

A gente pode concordar ou discordar do acordo, o importante é que os escritores têm que estar contra! Por quê? Porque escritor não tem compromisso com a gramática. Tem compromisso com a língua. A língua portuguesa durante muitos séculos sobreviveu sem nenhuma gramática normativa, e a gramática sobreviveu até o fim do século XIX sem nenhuma regra sobre uso de hífens. Mas as línguas vivem e se enriquecem graças aos seus falantes... e aos seus escritores. A diferença é que os comuns mortais falantes estão sujeitos às agruras dos decretos, os escritores têm o dever de não se submeterem a uma norma única. ESCRITOR NÃO TEM COMPROMISSO COM A GRAMÁTICA Não peça para um escritor obedecer às regras da gramática normativa. A representação literária do mundo exige a utilização de vários registros linguísticos. Ao utilizar apenas o padrão culto, o escritor estará falhando com o princípio de verossimilhança. O texto ficará artificial, perderá a sua literariedade. Será um texto banal, que em nad...

O CERTO E O ERRADO NA ERA DA RELATIVIZAÇÃO

Todo mundo tem uma quimera, eu também tenho a minha: encontrar uma palavra pura, sem dimensão temporal, intercambiável na construção da frase, imune a usos ideológicos. Claro que a língua não pode ter um elemento assim, como acontece com a matemática, porque a língua nunca se submete a composições cristalizáveis. A língua não conhece regras universais e as generalizações feitas a golpe de decreto ou de regra gramatical estão sempre com a guilhotina da evolução pronta para cortar-lhes as cabeças. A consciência de que a língua é uma expressão e uma extensão da experiência humana não deve, porém, levar à ilusão de um comportamento lassista, em que tudo é possível, aceitável e relativo. Na realidade é assim, mas depende: depende de quem fala e do contexto em que fala. Por exemplo, fico muito incomodada com as ridicularizações feitas em relação a pessoas que tiveram pouco ou nenhum acesso à educação formal: aquela coisa de rir do feirante que vende "sebola", da ambulante que ...

TRÊS CONSTRUÇÕES "BOAS DE ERRAR"

Pessoal: enquanto não encontro tempo para voltar a falar da nossa língua (e já tenho notinhas a comentar!), assinalo um blog amigo do Palavras Debulhadas, o Clareza & Coerência, com algumas dúvidas interessantes que discuti com a Claudia Atas: http://www.clarezaecoerencia.com.br/2014/04/tres-construcoes-boas-de-errar/ Boa leitura!

DESEJOS PARA 2014 OU DOS ERROS A SEREM EVITADOS

Deu tempo: vai aí a saideira de 2013! Como em todo final de ano, reservamos os últimos dias para fazer um balanço e programar o ano que está por chegar. O balanço já fizemos no texto de 13 de dezembro:  http://palavrasdebulhadas.blogspot.it/2013/12/retrospectiva-lingua-portuguesa-rumo-ao.html  . Portanto, falta o programa, aquela lista de coisas (boas, presume-se) para colocar em prática em 2014. E isso tem a ver com português? Ah, tem! Porque a coisa mais chata é ler aquelas mensagens cheias de boas-intenções mal apresentadas. Tipo assim: "Espero que as pessoas sejam menos corruptas"... O que é isso? Ser um pouquinho menos corrupto? Ser corrupto, mas não tanto? Certas qualidades não admitem gradação, sinto muito. É uma questão de estilo. Então aquele amigo que mente um pouquinho pode ser pouco mentiroso, mas sempre mentiroso é. "Espero contar com amigos mais sinceros". Outra ilusão. É assim: o sujeito sabe que está sendo enganado, mas acredita só naquele...

PARA QUE FALAR DO MUNDO QUANDO SE FALA DA LÍNGUA

Quem lê o Palavras Debulhadas já está acostumado a ler textos sobre coisas que aparentemente nada têm a ver com a língua. Só que a aparência engana. Eu costumo dizer assim: falar da estrutura da língua, falar da sua gramática, é louvável. Mas a língua é muito mais do que isso. A língua é um veículo poderoso de comunicação, que se conecta a gestos (que é linguagem não-verbal, mas extremamente comunicativa), que possui musicalidade (também essa uma linguagem não-verbal, mas que se relaciona mais diretamente à estrutura da língua por causa da fonética), que pode ter dimensão plástica (a literatura do século XX está aí para ensinar que a disposição da língua escrita na folha de papel comunica algo só por sua dimensão, cor e disposição espacial). Há um longo caminho a ser percorrido pela escola, para que o ensino deixe de apostar na gramática como elemento predominante da aprendizagem e valorize a língua em todos os seus aspectos - inclusive, mas não só, gramatical. Sei que isso vai se...

VOCÊ É MAFIOSO?

Oh... que pergunta horrível! Uma cara amiga minha diria: "você faz uma pergunta dessas sem nem me dar o tempo de retocar o batom?". E além do mais, o que os mafiosos têm a ver com a língua? Tudo. Mas em vez de dar o conceito pronto e mastigado, proponho um teste interativo, em que o leitor poderá descobrir através do método maiêutico se é mafioso ou não. 1) Um amigo seu revela que para ter acesso ao financiamento da casa destinado a pessoas com uma determinada faixa de renda, decidiu ocultar parte dos rendimentos na declaração de impostos. Você pensa: (a) não é problema meu (b) fez bem, no seu lugar eu faria o mesmo (c) apesar de ser seu amigo, não posso deixar de dizer que reprovo a sua atitude (d) outra resposta. Qual?........................... 2) Uma empresa está selecionando candidatos e quer saber se você conhece alguém com o perfil desejado. Você conhece uma pessoa com os requisitos, mas é uma pessoa antipática. O que você faz? (a) diz que não conhece ninguém ...

LEITURAS

É um vazio que preenche. É um silêncio que ensurdece. Parece uma pausa, mas é tempo cheio. É bagagem. É necessário. Ler é fundamental. O que estou lendo enquanto leio? Leio o estilo, saboreio a escolha das palavras. Detenho-me na dimensão da frase. Por que parágrafos longos intercalados por parágrafos curtos? Percorro as linhas e às vezes tranco a respiração. Suspense. Às vezes fico com raiva. Às vezes rio. Às vezes volto para ter certeza de que estou entendendo bem. E às vezes retorno pelo prazer de ler novamente. Depois de muito ter lido, achei que a leitura tivesse sido a minha melhor gramática. E foi, no início. A gramática normativa percorreu com facilidade meus neurônios e a minha boa disposição para apreender as lições, porque já tinha lido, e muito. Já tinha a língua nas veias, faltava a consciência. Depois da gramática - e ainda hoje, com a gramática -, a leitura tornou-se a bússola que indica os caminhos da língua. Quando não estou escrevendo aqui no blog é porque estou...

FORMA CONTRA NATUREZA

Por que o português tem tantas regras? É a pergunta que ouço frequentemente dos meus alunos. Resposta: porque é uma língua muito formalizada. E por que tem tantas exceções? É a segunda pergunta que mais ouço. Resposta: porque é uma língua imersa na história. A presença de regras e de exceções às regras é algo típico da nossa língua. Porém, há mais a ser dito: o português é uma língua estruturada para pessoas insipientes/incipientes. Quer dizer, possui regras de morfologia e ortografia estruturadas para pessoas com pouca cultura, por isso acessível também aos principiantes.  É justamente o alto grau de formalização da gramática que determina a luta com a natureza da língua. De um lado, os instrumentos gramaticais orientam e controlam a escrita; de outro, a evolução natural da língua (intimamente ligada às histórias pessoais, aos eventos históricos e aos fenômenos sociais) viola as regras que tentam conter os processos de transformação. Isso, porém, é inevitável, pois a história...