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AULA DE PORTUGUÊS

Este é um artigo sobre a língua portuguesa. Não. É um artigo sobre a história. Não. É um artigo sobre a psicologia. Não. É um artigo sobre a política. Não. Este é um artigo sobre ser humano. Manchete: “Homem é morto com doze facadas”. Não, não era um homem, era Moa do Katendê, mestre de capoeira, referência cultural para artistas do nível de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Este artigo é sobre a língua portuguesa: eu sempre explico aos meus alunos a função das palavras indefinidas. Elas servem para ocultar e retirar responsabilidades. Se eu digo: “todos devem avaliar com cuidado esse crime abominável”, ninguém vai assumir a responsabilidade de fazer isso. Para usar uma palavra indefinida mais comprometedora, devo dizer, no mínimo: “cada leitor deve avaliar com cuidado esse crime abominável”. Cada leitor, ou seja, você, leitor, que ainda não abandonou este artigo. Mas espere: este não é um artigo sobre a língua portuguesa. É um artigo sobre a história. Em 1942, uma empresa na Alem...

DOIS VEADOS

Esta semana causou polêmica a afirmação feita por um candidato à presidência de que um certo livro que aborda a sexualidade na infância estava sendo distribuído nas escolas. Houve chuva de desmentidos: um deputado desmentiu, a editora desmentiu, os jornais falaram da mentira. Se tivesse falado de um livro importante, difícil, daqueles que quase ninguém lê, poderia ter passado por beletrista, pedante, retórico, mas não teria causado a avalanche de comentários que provocou. Teria chamado a atenção daquela minoria de leitores atentos, que não é a maioria dos seus eleitores. Com a mentira, mais que deslavada, atraiu a atenção de todos. É uma estratégia eficaz para ser lembrado, embora seja um mal-caratismo sem tamanho. O fato pode causar sensação por razões políticas, culturais, antropológicas, mas não deveria surpreender. A literatura não serve para nada, mas fornece um acervo de retratos da alma humana e estimula a nossa capacidade de análise. Quem lê criticamente não é pego de surpre...

ODE MAIS QUE PERFEITA: PRETÉRITOS

Já não se encontram pessoas que usem o pretérito mais-que-perfeito. Que usem simplesmente, como eu gostaria que usassem: claro, perdemos o verbo, mas não o vício de ter caprichos. Não digo que não haja pedantes que utilizem o pretérito mais-que-perfeito simples, mas estes hoje foram suplantados pelos que se orgulham do baixo calão, da vulgaridade e da ignorância. Venceu a maioria. Aos pedantes hoje é reservado o silêncio de cristal e a indiferença de cristaleira, como o brilho de um tempo que amarelou. Na realidade, não é pela falta que me fazem os pedantes que lamento a ausência do nosso pretérito mais-que-perfeito. É que o desejo, a expectativa, a esperança eram mais que perfeitos, além de serem necessários. Pudera eu acabar com essa tristeza. Quem me dera espalhar sorrisos. Prouvera Deus! A gente pode até viver sem o pretérito mais-que-perfeito com esse uso particular: os italianos, que desconhecem essa opção sentimental, mais do que gramatical, sobrevivem trocando essa linda forma...