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ODE MAIS QUE PERFEITA: PRETÉRITOS

Já não se encontram pessoas que usem o pretérito mais-que-perfeito. Que usem simplesmente, como eu gostaria que usassem: claro, perdemos o verbo, mas não o vício de ter caprichos. Não digo que não haja pedantes que utilizem o pretérito mais-que-perfeito simples, mas estes hoje foram suplantados pelos que se orgulham do baixo calão, da vulgaridade e da ignorância. Venceu a maioria. Aos pedantes hoje é reservado o silêncio de cristal e a indiferença de cristaleira, como o brilho de um tempo que amarelou. Na realidade, não é pela falta que me fazem os pedantes que lamento a ausência do nosso pretérito mais-que-perfeito. É que o desejo, a expectativa, a esperança eram mais que perfeitos, além de serem necessários. Pudera eu acabar com essa tristeza. Quem me dera espalhar sorrisos. Prouvera Deus! A gente pode até viver sem o pretérito mais-que-perfeito com esse uso particular: os italianos, que desconhecem essa opção sentimental, mais do que gramatical, sobrevivem trocando essa linda forma...

SÃO JOÃO E A MÚSICA

Os nomes das sete notas musicais são as iniciais dos seguintes versos, de Paulo, o Diácono, em latim: Ut queant laxis Re sonare fibris Mi ra gestorum Fa muli tuorum Sol ve polluti La bii reatum S ancte I oannes O poema era usado como forma mnemônica para facilitar a aprendizagem da música por Guido d’Arezzo, considerado o inventor do primeiro sistema moderno de notação musical, por volta do ano mil. Em torno de 1600, Giovanni Battista Doni propôs a substituição de “Ut” por “Dó”. Alguns dizem que “Ut” era de difícil pronúncia, outros dizem que Doni considerava que “Dó” possuía um som harmônico. O nome da nota provavelmente é uma referência a “Doni”, o seu sobrenome. Os versos usados por Guido d’Arezzo podem ser assim traduzidos: Para que possam com livres vozes cantar as maravilhas das ações os servos teus retire dos contaminados lábios o pecado Ó, São João. (A imagem é um detalhe da obra San Giovanni, de Caravaggio)

ESQUERDA OU DIREITA?

Recentemente comentei que adoro comédias, mas raramente gosto de comédias. É que a comédia precisa ter duplo sentido e a risada acontece quando percebemos a duplicidade. A comédia - e nisso sou muito aristotélica - precisa causar um rebaixamento. Portanto, não acho graça em rir da desgraça alheia. Acho plausível fazer comédia com figuras públicas e com detentores do poder. É aí que funciona o rebaixamento. Personalidades públicas se divertem com as comédias inspiradas em sua trajetória - quando são inteligentes e têm senso de auto-ironia. Mas o gênero de que mais gosto precisa ter ainda um outro nível de interpretação, envolvendo a própria subjetividade do leitor. Levei alguns dias para publicar este texto porque estava pensando no que me faz rir como leitora. Depois de garimpar a memória e as emoções prazenteiras, lembrei de um dos contos mais divertidos de Moacyr Scliar: A Orelha de Van Gogh. O texto conta a história de um homem mediano, com medianos problemas, que no cotidiano d...