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SÃO JOÃO E A MÚSICA

Os nomes das sete notas musicais são as iniciais dos seguintes versos, de Paulo, o Diácono, em latim: Ut queant laxis Re sonare fibris Mi ra gestorum Fa muli tuorum Sol ve polluti La bii reatum S ancte I oannes O poema era usado como forma mnemônica para facilitar a aprendizagem da música por Guido d’Arezzo, considerado o inventor do primeiro sistema moderno de notação musical, por volta do ano mil. Em torno de 1600, Giovanni Battista Doni propôs a substituição de “Ut” por “Dó”. Alguns dizem que “Ut” era de difícil pronúncia, outros dizem que Doni considerava que “Dó” possuía um som harmônico. O nome da nota provavelmente é uma referência a “Doni”, o seu sobrenome. Os versos usados por Guido d’Arezzo podem ser assim traduzidos: Para que possam com livres vozes cantar as maravilhas das ações os servos teus retire dos contaminados lábios o pecado Ó, São João. (A imagem é um detalhe da obra San Giovanni, de Caravaggio)

ESQUERDA OU DIREITA?

Recentemente comentei que adoro comédias, mas raramente gosto de comédias. É que a comédia precisa ter duplo sentido e a risada acontece quando percebemos a duplicidade. A comédia - e nisso sou muito aristotélica - precisa causar um rebaixamento. Portanto, não acho graça em rir da desgraça alheia. Acho plausível fazer comédia com figuras públicas e com detentores do poder. É aí que funciona o rebaixamento. Personalidades públicas se divertem com as comédias inspiradas em sua trajetória - quando são inteligentes e têm senso de auto-ironia. Mas o gênero de que mais gosto precisa ter ainda um outro nível de interpretação, envolvendo a própria subjetividade do leitor. Levei alguns dias para publicar este texto porque estava pensando no que me faz rir como leitora. Depois de garimpar a memória e as emoções prazenteiras, lembrei de um dos contos mais divertidos de Moacyr Scliar: A Orelha de Van Gogh. O texto conta a história de um homem mediano, com medianos problemas, que no cotidiano d...

LITERATURA COBAIA

A falta de responsabilidade jornalística e, digamos, também as piores intenções pseudojornalísticas são fatores determinantes para a disseminação de notícias falsas. Essa péssima prática usa um dos mais caros instrumentos da criação literária: a verossimilhança. Não pode haver falsa notícia se ela não tiver aparência de notícia confiável. Nem digo verdadeira, porque este seria outro campo espinhoso, mas pelo menos digna de credibilidade. Uma notícia confiável, por exemplo, pode ser sectária, apresentar um ponto de vista claro; não por isso será, necessariamente, falsa. O mais correto seria falar de informação parcial. A notícia falsa é produzida como a falsificação de um quadro ou, melhor seria a comparação, a publicação de um falso manuscrito literário. Jorge Luis Borges já tinha previsto tudo naquele conto genial que é Pierre Menard, autor do Quixote. A literatura pós-moderna também brincou bastante com isso. Lembro, por exemplo, do romance Em Liberdade, de Silviano San...