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ESQUERDA OU DIREITA?

Recentemente comentei que adoro comédias, mas raramente gosto de comédias. É que a comédia precisa ter duplo sentido e a risada acontece quando percebemos a duplicidade. A comédia - e nisso sou muito aristotélica - precisa causar um rebaixamento. Portanto, não acho graça em rir da desgraça alheia. Acho plausível fazer comédia com figuras públicas e com detentores do poder. É aí que funciona o rebaixamento. Personalidades públicas se divertem com as comédias inspiradas em sua trajetória - quando são inteligentes e têm senso de auto-ironia. Mas o gênero de que mais gosto precisa ter ainda um outro nível de interpretação, envolvendo a própria subjetividade do leitor. Levei alguns dias para publicar este texto porque estava pensando no que me faz rir como leitora. Depois de garimpar a memória e as emoções prazenteiras, lembrei de um dos contos mais divertidos de Moacyr Scliar: A Orelha de Van Gogh. O texto conta a história de um homem mediano, com medianos problemas, que no cotidiano d...

LITERATURA COBAIA

A falta de responsabilidade jornalística e, digamos, também as piores intenções pseudojornalísticas são fatores determinantes para a disseminação de notícias falsas. Essa péssima prática usa um dos mais caros instrumentos da criação literária: a verossimilhança. Não pode haver falsa notícia se ela não tiver aparência de notícia confiável. Nem digo verdadeira, porque este seria outro campo espinhoso, mas pelo menos digna de credibilidade. Uma notícia confiável, por exemplo, pode ser sectária, apresentar um ponto de vista claro; não por isso será, necessariamente, falsa. O mais correto seria falar de informação parcial. A notícia falsa é produzida como a falsificação de um quadro ou, melhor seria a comparação, a publicação de um falso manuscrito literário. Jorge Luis Borges já tinha previsto tudo naquele conto genial que é Pierre Menard, autor do Quixote. A literatura pós-moderna também brincou bastante com isso. Lembro, por exemplo, do romance Em Liberdade, de Silviano San...

A TRADUÇÃO, ARTE ANALÓGICA

Tradutores devem ser tudólogos e ter um bom aparelho digestivo. Esses são dois entre os muitos requisitos necessários para competir com as máquinas. Aviso logo: não tenho nada contra as traduções automáticas ou traduções assistidas. Uso cotidianamente esses recursos para otimizar o trabalho. Os programas de tradução assistida, em especial, também possuem a vantagem de uniformizar a linguagem, evitando disparidades terminológicas. Claro, a uniformidade é uma qualidade do texto traduzido, se o que se espera do texto é isso. Nada mais equivocado que aplicar tal critério a um texto com grande peso conotativo. Além do mais, em qualquer situação, nunca confio completamente nas máquinas. Para fazer um bom trabalho, mesmo que empregue os melhores recursos digitais, reviso tudo manualmente, no melhor estilo analógico. Nos últimos anos, o desenvolvimento de tecnologias de tradução automática foi espantoso. Entretanto, há muitas mãos humanas por trás disso. Um exemplo está no uso das memórias d...