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LITERATURA COBAIA

A falta de responsabilidade jornalística e, digamos, também as piores intenções pseudojornalísticas são fatores determinantes para a disseminação de notícias falsas. Essa péssima prática usa um dos mais caros instrumentos da criação literária: a verossimilhança. Não pode haver falsa notícia se ela não tiver aparência de notícia confiável. Nem digo verdadeira, porque este seria outro campo espinhoso, mas pelo menos digna de credibilidade. Uma notícia confiável, por exemplo, pode ser sectária, apresentar um ponto de vista claro; não por isso será, necessariamente, falsa. O mais correto seria falar de informação parcial. A notícia falsa é produzida como a falsificação de um quadro ou, melhor seria a comparação, a publicação de um falso manuscrito literário. Jorge Luis Borges já tinha previsto tudo naquele conto genial que é Pierre Menard, autor do Quixote. A literatura pós-moderna também brincou bastante com isso. Lembro, por exemplo, do romance Em Liberdade, de Silviano San...

A TRADUÇÃO, ARTE ANALÓGICA

Tradutores devem ser tudólogos e ter um bom aparelho digestivo. Esses são dois entre os muitos requisitos necessários para competir com as máquinas. Aviso logo: não tenho nada contra as traduções automáticas ou traduções assistidas. Uso cotidianamente esses recursos para otimizar o trabalho. Os programas de tradução assistida, em especial, também possuem a vantagem de uniformizar a linguagem, evitando disparidades terminológicas. Claro, a uniformidade é uma qualidade do texto traduzido, se o que se espera do texto é isso. Nada mais equivocado que aplicar tal critério a um texto com grande peso conotativo. Além do mais, em qualquer situação, nunca confio completamente nas máquinas. Para fazer um bom trabalho, mesmo que empregue os melhores recursos digitais, reviso tudo manualmente, no melhor estilo analógico. Nos últimos anos, o desenvolvimento de tecnologias de tradução automática foi espantoso. Entretanto, há muitas mãos humanas por trás disso. Um exemplo está no uso das memórias d...

O QUE A LITERATURA ENSINA SOBRE A REDE

Todo autor constrói personagens e a própria autoria é um elemento constitutivo da ficção. O autor e a pessoa física a que ele se refere não coincidem. Quando falamos de autoria, de personagem autobiográfica e de outras dimensões ficcionais criadas literariamente, não estamos falando da pessoa que juridicamente é responsável pela autoria, mas estamos falando da "persona", da máscara literária que possui pontos de contato com a pessoa real, mas nunca de forma perfeitamente coincidente. O que podemos saber do autor é uma parte da sua personalidade; caso faça literatura autobiográfica, podemos saber um pouco do que transforma em personagem. Penso nos tantos autores que surpreendem pela timidez, sendo tão articulados nos textos escritos; ou naqueles que prezam a discrição, sendo exuberantes na linguagem. Pensem no Luis Fernando Verissimo ou no João Guimarães Rosa, por exemplo. O signo não é a coisa, dizem os linguistas. E quando escrevo "máscara" estou apenas indica...