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O QUE A LITERATURA ENSINA SOBRE A REDE

Todo autor constrói personagens e a própria autoria é um elemento constitutivo da ficção. O autor e a pessoa física a que ele se refere não coincidem. Quando falamos de autoria, de personagem autobiográfica e de outras dimensões ficcionais criadas literariamente, não estamos falando da pessoa que juridicamente é responsável pela autoria, mas estamos falando da "persona", da máscara literária que possui pontos de contato com a pessoa real, mas nunca de forma perfeitamente coincidente. O que podemos saber do autor é uma parte da sua personalidade; caso faça literatura autobiográfica, podemos saber um pouco do que transforma em personagem. Penso nos tantos autores que surpreendem pela timidez, sendo tão articulados nos textos escritos; ou naqueles que prezam a discrição, sendo exuberantes na linguagem. Pensem no Luis Fernando Verissimo ou no João Guimarães Rosa, por exemplo. O signo não é a coisa, dizem os linguistas. E quando escrevo "máscara" estou apenas indica...

DEU NA TV

Esses dias o meu filho me perguntou se eu tinha certeza de que as vacinas não fazem mal para a saúde. Respondi como uma pessoa que conhece o método científico: no momento atual, as vacinas são a melhor proteção para evitar as doenças contra as quais elas agem. Ele replicou, como fazem muitas pessoas que desconhecem os métodos da ciência, acham que a ciência possui interesses econômicos, colocam as explicações científicas em nível de opinião, ou pior, são movidas apenas por um complotismo alimentado por teorias de conspiração. Ele argumentou: quem disse que as pessoas que desconfiam das vacinas não estão certas? Para responder a essa pergunta é preciso explicar que a ciência não é o campo da verdade. É o campo das hipóteses e dos testes das hipóteses. Se algum dia as "teorias alternativas" (coloco entre aspas porque ditas teorias carecem de elementos que demonstrem materialmente o que afirmam) passarem pelo teste da verificabilidade e da repetibilidade, então poderemos afi...

COISIFICAÇÃO, CONSEQUÊNCIAS SEMÂNTICAS

Estava lendo Darcy Ribeiro quando me deparei com um termo que o autor certamente não usou por acaso: ao comentar o processo de escravidão, ele falou de importação de escravos. Algumas linhas adiante, voltou a repetir que os escravos eram importados. O termo "importação" doeu na carne. Estou convicta de que Darcy Ribeiro usou o termo para causar mal-estar, para evidenciar a coisificação de seres humanos durante o regime escravocrata. Um regime que durou trezentos anos. Mas o cotidiano nos reserva outros termos que surpreendem e sobre os quais nem sempre nos questionamos. Expressões como "recursos humanos" ou "capital humano" evidenciam o valor econômico ligado às pessoas inseridas no processo de produção. As pessoas possuem qualidades, ou qualificações, visto que as expressões mencionadas são empregadas na esfera profissional. Serem tratadas como "recurso" ou como "capital" revelam uma perspectiva sobre a sua condição, não é? T...