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COISIFICAÇÃO, CONSEQUÊNCIAS SEMÂNTICAS

Estava lendo Darcy Ribeiro quando me deparei com um termo que o autor certamente não usou por acaso: ao comentar o processo de escravidão, ele falou de importação de escravos. Algumas linhas adiante, voltou a repetir que os escravos eram importados. O termo "importação" doeu na carne. Estou convicta de que Darcy Ribeiro usou o termo para causar mal-estar, para evidenciar a coisificação de seres humanos durante o regime escravocrata. Um regime que durou trezentos anos. Mas o cotidiano nos reserva outros termos que surpreendem e sobre os quais nem sempre nos questionamos. Expressões como "recursos humanos" ou "capital humano" evidenciam o valor econômico ligado às pessoas inseridas no processo de produção. As pessoas possuem qualidades, ou qualificações, visto que as expressões mencionadas são empregadas na esfera profissional. Serem tratadas como "recurso" ou como "capital" revelam uma perspectiva sobre a sua condição, não é? T...

BERINGELA OU BERINJELA?

Ah, a berinjela, ou beringela, como quiserem. Quem não passou pela penitência escolar de ter de demonstrar conhecimentos ortográficos na mais tenra idade, escolhendo entre as letras "G" ou "J"? Não lembro como completei a palavra quando era criança, mas lembro que não entendia a regra e que o único jeito para solucionar o problema era decorar a forma indicada pela professora. Suponho que metade da turma acertou o exercício e a outra metade errou a loteria. Mas a pior notícia é que berinjela está certo. E beringela também está. Beringela é uma forma mais antiga, que sugere, pelo uso da consoante "G", que a palavra foi plenamente integrada na língua. Os portugueses continuam escrevendo assim até hoje. Berinjela é de uso corrente no Brasil e indica, por meio da consoante "J", que a palavra é de origem estrangeira. A grafia com "J" ganhou espaço quando se tomou consciência de que a palavra tinha sido introduzida na língua por meio do...

SINAL VERMELHO: NÃO BUZINE

Dezenas de romanos foram multados na semana passada porque uma sinaleira travou no sinal vermelho e os motoristas buzinaram para sinalizar que precisavam atravessar o cruzamento. Formou-se uma fila gigantesca, os carros ficaram emaranhados, os guardas municipais ficaram perdidos e o sinal não abriu. Diante da indignação dos motoristas, a autoridade local fez valer a sua voz e saiu largando multa para cada automóvel que buzinava. Muitos protestaram, dizendo que foram punidos em lugar de outros: os guardas podem ter autoridade, mas nem sempre têm ouvido (ou capacidade de interpretação dos signos). Para ser honesta, casos como esses são raros em Roma. Em geral, a autoridade é mais prudente: na dúvida, deixa passar. O pessoal estaciona em fila dupla: quando os guardas municipais se aproximam, começam a tocar apito para que os motoristas retirem os carros do local proibido e escapem da infração. Uma chance não se nega a nenhum cristão. Mas os tempos estão mudando: os cidadãos estão organ...