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PALAVRAS OFENSIVAS, SEM QUERER

A gente não precisa eliminar do dicionário palavras ofensivas, desagradáveis, discriminatórias. Não precisa. Não precisa ser politicamente correto para lavar a consciência, se a substância não muda. Ao contrário, é preciso compreender o quanto as palavras podem ferir e só por isso evitá-las. É preciso ter empatia, sentir o que dói no ouvido do outro para compreender os motivos pelos quais certas palavras não deveriam ser usadas, especialmente quando o uso não é utilizado com o preciso objetivo de ofender! Imagine, por exemplo, quando alguém com muita pena por uma perda devido a um desastre natural, digamos uma chuvarada que estraga a horta, exclama: "que judiaria!". A expressão "que judiaria!" é muito comum no Rio Grande do Sul. Vem da palavra "judeu", mas a maioria das pessoas não pensam nisso quando usam essa expressão em vez de dizer "que pena!" ou "sinto muito!". Dizem "que judiaria!" e se a pessoa comenta como isso é des...

Poema ao contrário

O dia da língua portuguesa eu festejo fazendo uns versinhos: Poema ao contrário Se as palavras sumissem Caminhar descalço Seria apenas um gesto Sem adjetivos Extravagante, miserável Bêbado, festivo Marítimo Poderíamos criar asas Sem definições que nos informassem Que isso é impossível Riscaríamos os mapas dos livros Para eliminar as legendas E traçar novos caminhos com nossos pés Se as palavras sumissem Beijos voltariam a ser beijos E não um significado De amor  Ou traição Não haveria ambiguidade Ou arrependimento Mas também não haveria perdão Não haveria borrachas Sem palavras para apagar E as ofensas seriam eternas Marcadas como ferro na memória: A dor de um braço machucado A tristeza de uma lágrima Sem palavras o sentimento seria tátil Gelada a solidão Sem palavras, a mudez seria Uma pose, uma fuga Ou a paralisação Sem palavras não contaria até dez Antes do soco na cara Sem palavras não há solução.

Nove verdades e uma mentira sobre a tradução

Resolvi entrar na brincadeira e falar algumas verdades sobre a tradução e o trabalho do tradutor. 1. A tradução promove o encontro de culturas, é verdade. Mas deve fazer isso sem achatar as diferenças, caso contrário, perde-se o valor da alteridade.   2. A tradução não deve ser feita palavra por palavra, nem conceito por conceito, mas texto por texto. Ou seja, a tradução ocorre em todos os níveis do texto, da fonética ao léxico , da sintaxe à semântica, até o contexto cultural de fundo.   3. Traduzir é entrar no papel do autor sem esquecer a própria bagagem. É exatamente no reconhecimento da sua bagagem pessoal que o tradutor faz emergir os aspectos relevantes do seu trabalho, como um barqueiro que transporta a língua original para a outra margem do rio. Transporta, mas não se confunde com ela.   4. O tradutor sabe lidar com todas as suas almas, sem se perder e sem fazer confusão. De certa forma, traduzir é deixar-se levar por uma saudável esquizofrenia ou assumir ...