Pular para o conteúdo principal

Postagens

Nove verdades e uma mentira sobre a tradução

Resolvi entrar na brincadeira e falar algumas verdades sobre a tradução e o trabalho do tradutor. 1. A tradução promove o encontro de culturas, é verdade. Mas deve fazer isso sem achatar as diferenças, caso contrário, perde-se o valor da alteridade.   2. A tradução não deve ser feita palavra por palavra, nem conceito por conceito, mas texto por texto. Ou seja, a tradução ocorre em todos os níveis do texto, da fonética ao léxico , da sintaxe à semântica, até o contexto cultural de fundo.   3. Traduzir é entrar no papel do autor sem esquecer a própria bagagem. É exatamente no reconhecimento da sua bagagem pessoal que o tradutor faz emergir os aspectos relevantes do seu trabalho, como um barqueiro que transporta a língua original para a outra margem do rio. Transporta, mas não se confunde com ela.   4. O tradutor sabe lidar com todas as suas almas, sem se perder e sem fazer confusão. De certa forma, traduzir é deixar-se levar por uma saudável esquizofrenia ou assumir ...

OS RICOS E A FARTURA, UMA LIÇÃO DOS GREGOS

Há duas figuras ligadas à abundância na mitologia grega: Plutão e Ceres. De Plutão herdamos muitas palavras: plutocracia, plutônio, plutomania, plutônico, pluto. Ceres nos deixou o cereal, símbolo por excelência da fartura. Duas figuras ligadas a eventos negativos: Plutão é associado ao inferno, Ceres ao inverno. Plutão percorre uma série caminhos estranhos na mitologia grega, mas duas coisas são certas: que o seu nome está ligado etimologicamente à palavra "riqueza" em grego e que a sua figura é associada a Hades, deus do inferno (inferno no sentido grego), cujo nome significa "invisível". Essa associação é possível graças ao fato de a terra selar muitas riquezas e ao fato de o inferno grego estar abaixo da terra, ou seja, invisível aos mortais. Ceres, por sua vez, é a sogra de Plutão. Algumas histórias contam que Plutão teria sequestrado a sua filha, Perséfone, e que pela imensa dor que isso causou à mãe, ela teria criado o inverno, fazendo cair o frio e a neve ...

O DIA DA LÍNGUA MATERNA

Como falar de língua materna em um país multicultural? Claro, a minha língua materna é o português. Mas a minha língua materna tem um colorido exótico, aquela brancura tão estranha nos trópicos. A minha língua materna tem o sabor daquelas tradições que já perderam a sintaxe e espalharam pelo idioma palavras soltas, como um colar de miçangas que arrebenta e esparrama as contas na areia: chimia, chucrute, quechimia, compota, cuca, clês... A minha língua materna é bronzeada, é um léxico contagiado pelo sol, adaptado às nossas latitudes. É um aportuguesamento, que denota a sua novidade; é a morte do velho, o desconhecido no seu lugar de origem. É ganho e é perda. O que mais impressiona na minha língua materna, porém, é a presença de um silêncio enorme, que diz muito sobre o que não gostamos de comentar. Uma das minhas bisavós morreu aos 101 anos. Cheguei a conhecê-la, tinha dez anos quando ela faleceu. Mas nunca a vi falar. Nunca. Quando íamos visitá-la, na casa de uma tia-avó, ela geralm...