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Um silêncio aberrante

O silêncio é aquele espaço entre uma letra e outra, entre uma sílaba e outra, entre uma palavra e outra, entre uma frase e outra, entre um parágrafo e outro, entre um texto e outro, entre uma vida e outra, na qual nós, leitores de textos, do tempo e da vida, inserimos a nossa interpretação - também essa silenciosa. Os silêncios se falam, mas ninguém sabe se eles se entendem. Só podemos testar o nível de compreensão quando abrimos o texto ao diálogo, quando com generosidade e sem temor nos abrimos ao que o leitor possa pensar daquilo que leu. Só podemos fazer isso, depois que as páginas são esfolheadas e percorridas pelo olhar atento, correndo o risco de acolher suspiros, queixas, espantos, repulsa, paixão, obsessões, ideias fixas ou opiniões vazias. Mas esses silêncios são sempre instigantes, mesmo que não se traduzam, mesmo que nunca saibamos o que querem dizer. Há somente um silêncio assustador, desumano, niilista, que nos ameaça constantemente: o silêncio do escritor. O silêncio d...

Nutella? É guerra!

O Made in Italy nunca para de sofrer. A Itália é conhecida no mundo pelas iguarias e pelos produtos da indústria alimentar, feitos segundo receitas rigorosas com matérias-primas locais. Quer dizer: são inimitáveis. Mas o mundo copia, e no mundo inteiro encontramos o parmesão, que é não só uma tradução do "parmigiano", mas uma cópia mal feita do queijo original. Muçarela? Sim, em português escrevemos com "ç" para deixar registrado que se trata de um estrangeirismo, mas a verdadeira "mozzarella" tem que ser feita com o leite de búfala de Caserta, de Salerno ou do Sul do Lácio (a chamada "mozzarella pontina"). A última batalha gastronômico-linguística está sendo feita contra o termo Nutella. A Academia Nacional do Irã decretou que o nome deve ser banido do país e traduzido em persa. Mas convém explicar melhor nos detalhes: no Irã, as panquecarias são chamadas de NutellaBar, porque fazem especialmente panquecas recheadas com creme de chocolate e ...

AB IMO CORDE

Gosto muito de etimologia, não somente por amor à história, mas também pelas relações que as palavras estabelecem entre si. É um vício, porque uma palavra puxa outra, história puxa história e a gente vai se redescobrindo no labirinto da língua. Hoje quero falar da família da palavra "coração", por isso usei o título em latim, que significa exatamanete isso: "do fundo do coração". Vamos, então, recuperar alguns sentidos lá do fundo do baú? Que tal começar com MISERICÓRDIA? A palavra possui a raiz miseri-, que também está presente na palavra "miséria", e que significa suscitar piedade. A isso se soma o elemento -CORDIA, do latim "cor, cordis", ou seja, "coração". Sentir misericórdia é ter piedade com o coração. Para os latinos, o coração era o centro das qualidades humanas. Por isso, a CORAGEM também vem do coração. A CONCÓRDIA e a DISCÓRDIA são a harmonia ou a desarmonia mediadas pelo coração, por meio das emoções. O ACORDE também vem...