Pular para o conteúdo principal

Postagens

AB IMO CORDE

Gosto muito de etimologia, não somente por amor à história, mas também pelas relações que as palavras estabelecem entre si. É um vício, porque uma palavra puxa outra, história puxa história e a gente vai se redescobrindo no labirinto da língua. Hoje quero falar da família da palavra "coração", por isso usei o título em latim, que significa exatamanete isso: "do fundo do coração". Vamos, então, recuperar alguns sentidos lá do fundo do baú? Que tal começar com MISERICÓRDIA? A palavra possui a raiz miseri-, que também está presente na palavra "miséria", e que significa suscitar piedade. A isso se soma o elemento -CORDIA, do latim "cor, cordis", ou seja, "coração". Sentir misericórdia é ter piedade com o coração. Para os latinos, o coração era o centro das qualidades humanas. Por isso, a CORAGEM também vem do coração. A CONCÓRDIA e a DISCÓRDIA são a harmonia ou a desarmonia mediadas pelo coração, por meio das emoções. O ACORDE também vem...

NEOLOGISMOS EM TEMPO DE CRISE

Se alguém retornasse hoje ao Brasil, após uma ausência de 10 anos, ficaria perplexo e desorientado com os termos que empregamos no cotidiano: coxinha, petralha, isentão... o que é isso? É a vitalidade da língua, sinalizando um momento crítico, significativo na nossa história e na nossa sociedade. O termo "coxinha" designa um salgadinho típico da nossa culinária, mas hoje se torna metáfora. Talvez possamos dizer que é um cidadão típico, médio, ou médio-alto, e que atualmente se coloca entre os que levantam críticas explícitas ao governo. A palavra "petralha", salvo engano meu, é um trocadilho com "metralha", personagens da Disney, aqueles ladrões fofos que viviam tentando roubar o Tio Patinhas. Aqui a alusão é referida aos casos de corrupção que estão sendo investigados na Operação Lava Jato. Os "petralhas" são os defensores do governo sob investigação. "Isentão" é o último neologismo do momento. Diante da polarização entre "coxi...

NÃO HÁ VIDA FORA DA CALIGRAFIA

A frase do título encerra um conto magistral de Moacyr Scliar, O Sindicato dos Calígrafos, escrito em 1978. Era a época de ouro da datilografia, e ninguém sonhava que o visor tátil iria aposentar até os teclados que substituíram com prepotência a máquina de escrever. Todo o conto é um hino à melancolia que não desiste de ter esperança, porque não tem nenhuma esperança, porque não tem outra solução. Um dos personagens, o Epaminondas, faz uma reflexão sobre a sua vida e considera que teria sido oportuno ter tido o nome Luís - com "l" minúsculo, numa ascendente que atinge o ponto culminante para descer em um vertiginoso crepúsculo. É uma das imagens mais amargas do texto, na qual o sujeito se defronta com uma realidade inexorável: a da sua vida perfeitamente espelhada na sua atividade profissional. Uma vida que perde o sentido à medida que a profissão perde utilidade. É nesse contexto que se sobressai a frase: "A permanência da arte caligráfica, diz Alcebíades, um dos fund...