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TCHAU PARA VOCÊS!

"Seu escravo, vossa mercê!" Quem diria que ao usar a expressão coloquial "tchau pra vocês!" estamos atualizando uma expressão que encerra tanta reverência, não é? Pois pasmem, é isso mesmo. Vamos à história. A palavra "tchau" vem do italiano, mas especificamente do dialeto vêneto ("sciao"). Não é de admirar-se, visto que temos tantos descendentes de vênetos no Brasil. Mas antes de vir do vêneto, o "sciao" (transliterado como "tchau") vem do latim "sclavus" (escravo). É um termo que pertencia à expressão: "seu escravo". Também no português, usar essa expressão era o máximo da reverência: "José, seu escravo!". Lindo quando se trata de uma declaração de amor, abominável quando significa total submissão. Já a palavra "vocês" tem uma história toda lusófona: trata-se de uma típica evolução caracterizada pela economia fonética, ou seja, pela simplificação ou concisão na pronúncia (o que de...

REBOBINAR - EM VIA DE EXTINÇÃO

Fora da esfera técnica, ninguém mais usa o verbo rebobinar. Antigamente era costume: rebobinava-se o filme da máquina fotográfica para não perder as imagens na hora de mandar fazer a revelação. Rebobinava-se a fita de vídeo para não pagar multa na locadora. Rebobinava-se a fita cassete (com caneta Bic) para não perder tempo, enquanto se escutava a próxima fita no aparelho de som. Ninguém mais rebobina. A gente clica, deleta, carrega, baixa, aperta o botão, escolhe o tipo de reprodução. Rebobinar dava aos sentidos da visão e da audição uma dimensão tátil mais intensa que a de hoje. Ou pelo menos mais circular.

IR: MODOS DE USAR

Fazia tempo que eu não falava dos verbos. É que eles são tão arraigados ao uso que fazemos da língua, que explicitar é quase uma violação da intimidade que temos com as palavras, com o nosso modo de conviver com o idioma. Obviamente, não pretendo com isso dar a entender que não é preciso estudar os verbos. É preciso estudá-los e é um direito tomar posse deles, torná-los nossos, usá-los com toda a propriedade de que dispõem. Usar bem os verbos é como apropriar-se plenamente de uma herança. Não falo tanto dos verbos porque a escola faz isso todos os dias, como um jardineiro paciente, como um precetor cuidadoso. Eu falo dos verbos como um pintor de aquerela sentado na praça: com paixão pelo tempo que corre, pela água que escorre, pelas cores que desbotam indiferentes à beleza do absoluto. Eu falo dos verbos que fazem caretas para os falantes, reinventam-se, vivem porque renascem todos os dias nas nossas línguas. O verbo IR, por exemplo, hoje bateu à porta da minha memória sem ser cha...