Pular para o conteúdo principal

Postagens

ACREDITE, QUEM QUISER

Quando a minha mãe queria que as pessoas se assombrassem com um fato, ela nunca deixava de acrescentar no fim da história a expressão: "Acredite, quem quiser". Na verdade, ela não dizia assim. Ela dizia: "acredite-quem-quiser". Quer dizer, a frase era uma única e compacta massa de sentido. Era, como tantas outras do nosso repertório popular, uma expressão linguisticamente sofisticada, construída na ordem inversa, com o uso do futuro do subjuntivo e do imperativo. Uma frase que a gente cansa de encontrar na boca do povo (que não conhece a riqueza do seu linguajar e acredita ser ignorante). Sei que tenho sido insistente ultimamente, mas acredito (e acreditar é muito importante para ensinar) que as pessoas precisam reconhecer o que usam, devem valorizar o que já sabem e, a partir disso, aprimorar o conhecimento. Essa coisa de dar exemplos de como as pessoas são burras, de mostrar que a ignorância campeia solta pelas ruas, pode até ter uma dimensão estatística verifi...

CRENÇAS E DESCRENÇAS

A educação está cheia de histórias de descrenças. Há quem não acredite que o ensino possa ganhar da ignorância. No fundo, acredita mais na ignorância que o aluno traz do que no conhecimento que transmite. E o ensino falha. Quando a gente acredita mais na ignorância, ela toma conta do campinho, assola as estatísticas e reforça a ideia de que ensinar é difícil e aprender é complicado. Todo mundo sai perdendo, mas há quem acredite que isso reforce uma certa aura profissional. Há quem não acredite que os alunos sejam capazes de usar estruturas complexas da língua. São pessoas que ouvem pelas ruas frases como "se Deus quiser" ou "se eu pudesse, minha filha" e acham que esses exemplos de subordinação na boca do povo são mero fruto do acaso. Não acreditam que sejam exemplos de interiorização das estruturas da língua nativa. Os descrentes gastam um enorme tempo tentando explicar as difíceis orações subordinadas aos seus subordinados alunos para demonstrarem a tese das d...

"PLAIN LANGUAGE", PARA QUE TE QUERO

Você, leitor, que acha a ortografia do português complicada Você, leitor, que no momento da dúvida, desejou intimamente uma ortografia simples, sem exceções Você, leitor, que nunca nessa vida dura teve oportunidade de descobrir etimologicamente a sua língua Você, leitor, que foi desprezado pelos pedantes e humilhado pelos doutos Você, leitor sensato, que até concorda que não haveria mal em unificar fonética e escrita onde não há controvérsia Você, leitor, que assiste aflito às discussões sobre os acordos da língua e aguarda aflito pelo dia em que terá de escrever com outras regras de novo Você, leitor sofrido, estará perguntando: - "Plain Language"? Era só o que me faltava. Pois é. Eu também não pensava na "Plain Language" há tempos. Foi essa barbaridade de proposta chamada "Simplificando a Ortografia" que me fez lembrar dela. Sim, porque há modos e modos de simplificar a vida da gente. Cito dois parágrafos do texto do projeto "Simplificando...