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CRENÇAS E DESCRENÇAS

A educação está cheia de histórias de descrenças. Há quem não acredite que o ensino possa ganhar da ignorância. No fundo, acredita mais na ignorância que o aluno traz do que no conhecimento que transmite. E o ensino falha. Quando a gente acredita mais na ignorância, ela toma conta do campinho, assola as estatísticas e reforça a ideia de que ensinar é difícil e aprender é complicado. Todo mundo sai perdendo, mas há quem acredite que isso reforce uma certa aura profissional. Há quem não acredite que os alunos sejam capazes de usar estruturas complexas da língua. São pessoas que ouvem pelas ruas frases como "se Deus quiser" ou "se eu pudesse, minha filha" e acham que esses exemplos de subordinação na boca do povo são mero fruto do acaso. Não acreditam que sejam exemplos de interiorização das estruturas da língua nativa. Os descrentes gastam um enorme tempo tentando explicar as difíceis orações subordinadas aos seus subordinados alunos para demonstrarem a tese das d...

"PLAIN LANGUAGE", PARA QUE TE QUERO

Você, leitor, que acha a ortografia do português complicada Você, leitor, que no momento da dúvida, desejou intimamente uma ortografia simples, sem exceções Você, leitor, que nunca nessa vida dura teve oportunidade de descobrir etimologicamente a sua língua Você, leitor, que foi desprezado pelos pedantes e humilhado pelos doutos Você, leitor sensato, que até concorda que não haveria mal em unificar fonética e escrita onde não há controvérsia Você, leitor, que assiste aflito às discussões sobre os acordos da língua e aguarda aflito pelo dia em que terá de escrever com outras regras de novo Você, leitor sofrido, estará perguntando: - "Plain Language"? Era só o que me faltava. Pois é. Eu também não pensava na "Plain Language" há tempos. Foi essa barbaridade de proposta chamada "Simplificando a Ortografia" que me fez lembrar dela. Sim, porque há modos e modos de simplificar a vida da gente. Cito dois parágrafos do texto do projeto "Simplificando...

FAZER ACORDO É PRECISO, SIMPLIFICAR NÃO É PRECISO

Talvez nem todos os leitores lembrem, mas eu reconheço: defendi o Acordo Ortográfico de 2008 desde o início. Então, como é que agora eu ataco de forma tão veemente a proposta de simplificação da ortografia? (Notícia, aliás, desmentida pelo Senador, mas para mim a emenda ficou pior que o soneto, a partir do momento em que ele admite que há uma comissão estudando questões referentes ao Acordo). Bem, a questão sobre a qual pouca gente fala, mas muito incide na nossa escrita, é a da história da língua. Se a cultura da descoberta da história da língua e da sua ortografia não chegar pelo menos ao ensino médio, os falantes nunca terão oportunidade formal de entender realmente a ortografia da nossa língua. Vou sintetizar muito, só para dar um gostinho e atiçar a curiosidade (na rede há um monte de informações, desde ensaios acadêmicos até artigos informativos sobre o tema). A história da ortografia da língua portuguesa é dividida em três fases: a da escrita fonética, a da escrita pseudo-e...