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PALAVRAS QUE CONTAMINAM

Os professores sabem bem disso (mas às vezes esquecem): o seu padrão de língua é contagiante (ou contaminante). Eu procuro ficar atenta ao meu modo de falar, ao meu sotaque, para não contagiar demais os alunos com meu “gislainês porto-alegrense”. Isso não evita que escape um “de manhã” (pronunciando como se escreve, à moda gaúcha) e chamando a atenção dos estudantes, que perguntam: “mas você não disse que “de” se pronuncia “di”?” GE-RAL-MEN-TE, sim. NO PORTUGUÊS FALADO NO BRASIL! O fato é que nossos ouvidos nativos estão acostumados às várias possíveis pronúncias. Temos vários modos para pronunciar as sílabas compostas com as consoantes “s”, “d”, “t”, “r”. As vogais também mudam muito de acordo com a posição na palavra e com o falante. Algumas vogais ditongam onde não há ditongo, outras se nasalizam onde não há nasalização. E tudo isso não é um fator de instabilidade da língua, mas uma expressão da nossa enorme diversidade cultural. Estamos acostumados às nossas diferenças inte...

TESTAMENTO

Quando uma língua morre, o seu legado é incorporado ao patrimônio dos idiomas descendentes. Dito em palavras pobres, o trabalho da filologia é ir buscar a herança que adquirimos e que rendem frutos nas línguas modernas. Descobrimos, assim, uma rede de relações que nos liga à panínsula itálica, à Magna Grécia e chega aos territórios indianos, onde ainda hoje o sânscrito é usado em certos âmbitos. Encontramos ainda elementos da língua que afundam raízes na África, no Oriente Médio, sem falar das influências anglófonas que lançam seus tentáculos do hemisfério norte. O português tem parentes nos quatro cantos do mundo!         Isso é uma grande vantagem para quem quer aprender o português, pois poderá buscar na própria língua recursos para a compreender melhor a nossa. É também uma grande vantagem para o falante nativo que quer aprender uma língua estrangeira, pois encontrará na própria língua portuguesa elementos úteis para descobrir o novo idioma. E ...

SER IMIGRANTE, TER UM FILHO MAMEIRO

Não costumo colocar no blog elementos da minha vida pessoal, nem quero dar uma de Piaget e fazer teoria usando meu filho como cobaia, mas desta vez abro uma exceção para mostrar algo que acontece toda hora em uma língua viva: nasce uma palavra. Ser a única estrangeira da família é uma questão que já não levanta mais polêmicas. A última discussão foi aberta pelo filho, que naturalmente tem o entusiasmo dos seus seis anos e não desiste nem diante do enésimo “não”. Estava desconsolado porque a mamãe fala bem italiano e continua afirmando que é brasileira, só brasileira. Então eu disse que a gente pode ser estrangeiro e falar bem uma língua estrangeira. E que em uma família as pessoas não são iguais. Na nossa família todo mundo é diferente e isso é muito interessante! Essas conversas acontecem geralmente durante o café da manhã, entre um biscoito e um sanduíche, eu falando português, o pai falando italiano, e o filho falando as duas línguas. Eu bato o pé com essa história de ser br...