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A LÍNGUA, O LIMÃO E A CEBOLA

Quase todo estudante conhece o que se diz dos maus professores: “quem não sabe ensina”. E quem frequenta as salas dos professores sabe o comentário sobre os alunos: “falam mal”. É uma queda-de-braço sem fim. A culpa é de quem não ensina ou de quem não aprende? A arte de transformar limão em limonada Hoje o velho provérbio é conhecido como talento para solução de problemas ou “problem solving attitude”. É uma atitude rara nos mestres ruins e nos alunos preguiçosos. É a grande lacuna que se evidencia quando um professor diz: “aquele aluno não tem jeito” ou quando o aluno se justifica com palavras do tipo: “não consigo porque é muito difícil”. Mas é uma arte mais necessária do que nunca. Professor que vê no seu aluno o “limão” da vez, deixando de ver nele uma oportunidade, comete um grave equívoco: não só deixa de fazer a diferença para o aluno, mas também deixa de perceber que pode ser um bom professor. Aluno que usa a dificuldade como álibi tem um caminho de fracasso ou de suc...

TROCADILHOS NA PONTA DA LÍNGUA

Há algumas semanas fui apresentada a uma colega de profissão que, ao saber que era brasileira, comentou: “ah, você escreve em português do Brasil...”. Eu corrigi: “não, escrevo em português do acordo”.  Quando mencionei o “Acordo” vi uma nuvem em seus olhos. A questão continua causando grandes debates. Então corrigi as minhas palavras: “... ou do desacordo, como quiser”.  Ouvindo  trocadilho, a colega que tinha feito as apresentações correu para apagar o fogo: “hoje é dia de festa, não vamos brigar por isso”. E quem pensava em brigar? Eu estava apenas brincando para não dramatizar uma questão que poderia ter sido de fato (ou facto) a melhor ocasião dos últimos tempos para ficarmos unidos pela língua. Ficar unido não é ficar igual, não é estabelecer um patamar medíocre, mas significa ampliar os nossos horizontes linguísticos e culturais, mantendo a base ortográfica como plataforma comum. Todas as outras esferas da língua (lexical, semântica, sintática, pragmática)...

SEIS NÃO É MEIA DÚZIA

Sinônimo não existe. Quando as pessoas me perguntam o que estou querendo dizer com isso, costumo responder que estou dizendo o que estou dizendo; se quisesse dizer outra coisa diria outra coisa. Na verdade, quando as pessoas perguntam o que você está querendo dizer, não estão esperando que você se explique  com outras palavras, afinal de contas, todo mundo sabe que “sinônimo não existe”. As pessoas estão esperando que você explique a metáfora, o uso deslocado que fez com suas palavras; esperam que você explique o que não foi dito, foi dito com meias palavras ou foi dito metaforicamente, usando um “deslizamento semântico”, como se diz em termos linguísticos. Seis não é meia dúzia porque sinônimo não existe, mas seis pode ser meia dúzia porque a língua é polissêmica. Uma questão de polissemia. Como digo frequentemente a meus alunos, é preciso prestar atenção às definições usadas para explicar a língua, que nesse caso é “deslizamento”. De fato, o fenômeno do “deslizamento” é muito pr...