A língua portuguesa na imprensa

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quarta-feira, 6 de junho de 2012

O QUE É PRECISO PARA LER EM PORTUGUÊS?


Na universidade eu tinha um colega que lia dicionário. Não é brincadeira. Hoje é professor universitário, um profissional sério e competente. Mas é óbvio que esse resultado profissional não se deve à leitura do dicionário. Para não descredenciar meu colega, que respeito muito, é preciso explicar até o fim o seu método: ler dicionário era uma espécie de rito noturno, utilizado para desafiar a própria memória, para descobrir alguma palavra nova, para refletir sobre o léxico.
Um velho mito consolidado entre professores de língua é que o conhecimento de um idioma é diretamente proporcional ao número de vocábulos utilizado pelos estudantes. Há inclusive pesquisas que mostram a relação entre o número de palavras utilizadas e a faixa salarial em que o profissional pode se colocar. Essa é uma grande falácia. Se assim fosse, os professores de português, os gramáticos e os linguistas receberiam uma remuneração milionária, e os físicos, com sua conhecida concisão, provavelmente seriam condenados à pobreza perene.
Todavia, essa crença continua presente no ensino, e a questão das dúvidas lexicais muitas vezes é trabalhada de forma estéril. Quando o aluno pergunta o que uma palavra significa, há muita gente que liquida essa preciosa oportunidade e, em vez de explorar a bagagem de conhecimentos dos alunos, limita-se a dar a definição ou a tradução da palavra. E a aula prossegue.
Os meus alunos sabem que uso muito dicionário em sala de aula. E que esse uso é árduo e que às vezes empregamos muito tempo nessa tarefa. Isso acontece porque acredito que explicitar o sentido de uma palavra não é suficiente para que a definição se aninhe no coração do aluno, para que se transforme em conhecimento (é bom lembrar que etimologicamente o verbo “decorar” vem da palavra “coração”, quer dizer, a lembrança está ligada à emoção, não somente a uma função racional). Então, para desfolhar o sentido de uma palavra, recorro frequentemente à associação de ideias, a semelhanças ortográficas em outras línguas que possam ajudar a descobrir o sentido da palavra, e sempre pergunto – antes de dar a resposta – se alguém do grupo conhece aquela palavra, se é capaz de falar sobre ela. Em outras palavras: vou buscar na bagagem de cada aluno os elementos que possam permitir a memorização da nova palavra.
A bagagem pessoal (o “background”) é fundamental para ler em outra língua. Confiar na própria bagagem e enriquecer a própria bagagem através de experiências são ações fundamentais para superar o vazio que por vezes aparece diante de palavras que não entendemos no interior de um contexto.
Para mostrar isso na prática, gostaria de propor um pequeno teste. A lista a seguir contém palavras que, suponho, são conhecidas pela maioria dos falantes nativos e/ou estrangeiros do português:
quadrados – órbitas – períodos – planetas – cubos – eixos – translação – proporcionais – maiores – suas – os – dos – de – aos – são
Agora proponho um texto utilizando as palavras acima:
“Os quadrados dos períodos de translação dos planetas são proporcionais aos cubos dos eixos maiores de suas órbitas”.
O que é preciso para entender a frase acima? Certamente não basta conhecer o sentido superficial dos vocábulos. Tratando-se de uma definição da física, é preciso ter alguma familiaridade com essa esfera do conhecimento para entender o que está sendo expresso. Quer dizer, é preciso ter bagagem. (Para os curiosos: essa é a terceira Lei de Kepler).
Quando estudamos uma língua, não podemos pensar que conheceremos o básico, o avançado ou o superior de uma língua. Conheceremos um número maior ou menor de registros, de acordo com a nossa experiência, o nosso interesse e as nossas necessidades. Precisamos pensar mais nos registros (nos setores, nas esferas) em que utilizaremos a língua. Se gostamos de música, é bom aproveitar nossa bagagem nessa área para descobrir a língua estrangeira. Se trabalhamos na área científica e estudamos português para trabalhar no Brasil, precisamos conhecer em português as fórmulas, os registros utilizados naquele setor. Se estamos procurando emprego, precisamos estar preparados para o tipo de pergunta e o tipo de resposta esperada.
Tudo isso precisa ser feito com envolvimento emocional, com interesse. “Decoreba”, quer dizer, memorização à moda papagaio (detalhe: decoreba, termo pejorativo, é uma simulação do decorar, é uma falsa memorização com o coração), não leva a nenhum resultado duradouro. Pensem nisso e sigam o seu coração. Ou, como se diz em italiano, “va’ dove ti porta il cuore”.

4 comentários:

  1. Realmente o uso do dicionário no sentido bem expressado neste artigo, nos permete de conhecer, entender e aprofundar uma língua de uma forma mais crítica e madura.

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  2. Obrigada pelo comentário.
    Uma pergunta: em relação às palavras utilizadas para o exemplo, conseguiu entender o texto? Se sim, na sua opinião isso foi resultado de sua bagagem cultural?

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  3. Claramente o bagagem cultural é imprescindível. Se você faz um experimento de esta modo pode ver claramente o que isso significa:

    toma dois números 5 e 2 e pergunta a 3 pessoas diferentes o que pode significar:

    O primeiro um matemático diz: dois numeros primos.
    O segundo um estatístico: uma progressão em base 3.
    o terceiro um informático: dois elementos de uma variável casual.

    tem que ver com o perfil de cada um, seguramente!

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  4. Vou recomendar no meu blog. Artigo estimulante e saborosamente didático.

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